sábado, 10 de abril de 2010

Coração peregrino

Na verdade, nunca sei se fui ou se voltei. Depois de lauda comilança bem regada com amigos, em meio a uma bucólica e ensolarada tarde de domingo junto à janela de um coletivo esvaziado a caminho de casa, dissipado no transe da moto-paisagem fusionada aos meus mais simplórios devaneios, assaltaram-me, bem no meio do Jardim de Alah, aqueles aniquiladores sintomas – tosses, esgares convulsivos, quase epiléticos – vaticinando mais um dramático episódio em minha saga inverossímil de inexorável sujeição.
Num refluxo lépido, escapuliu-me o coração do peito. Quando dei pelo que posso chamar “resto de mim”, como das outras vezes, fisiologicamente são e bestialmente atônito, o vi em insana carga, tentando uma brecha entre as espáduas e costelas da mulher que (ele) entendia, transido, lógico (?) de eloqüentes emoções e de incondicional amor, ser mais uma de minhas (nossas) almas gêmeas, logo ali, três bancos à frente.
Era assim, volta e meia, deixava um vazio em mim, a fim de saciar seus próprios impulsos. Sem identidade, só me restava observá-lo ou segui-lo. Pô-lo de volta, quando conseguia capturá-lo a tempo, só me trazia angústias lancinantes, geniosamente ministradas pela sua vingativa contrariedade. Quando não, vinha com anginas, ameaças de infarto e outras cardiopatias que só cessavam quando ele palpitava por outra paixão.
Naquela tarde exagerou. Aproveitando logo as primeiras séries de espasmos do escandaloso acesso de tosses, tal acrobata, voou-me pela boca, executando uns dois mortais, antes de sair quicando resoluto pelo assoalho de alumínio sujo sob os bancos do ônibus, deixando um rubro rastro. Ensandecido, espumando e flexionando todos os músculos, projetou-se num átimo de segundo na nuca, não posso repreendê-lo de todo, daquela belíssima mulher. Abusado e intrépido, naturalmente sem qualquer reflexão, desceu até as espáduas e plasmou-se (e a mim), invasor osmótico, ao corpo da mulher, agora amada, como quem toma de assalto uma nação. Por um tempo, confesso, perdi qualquer contato com ele. Virei, lembro, talvez pela estonteante veemência da sequência, algo como um éter ululante, desprovido de qualquer sentido ou sentimento, bossalizado.
De fato, ainda inanimado, percebi que o raciocínio, negaceando, voltava-me, à prestação, declarando, no entanto, que não sentia mais qualquer emoção. Havia me tornado um daqueles a quem chamam “sem coração”. O pior é que certo da gravidade e do grau de pesar que aquela situação impunha, não conseguia sentir, dali em diante, nenhuma nesga de pavor ou raiva. Provido apenas de exasperante lógica, me sentindo meio como o “Spok”, o gélido vulcaniano da antológica série televisiva dos anos 70, a “Jornada nas Estrelas”, vi a mulher, dona de meu pulsante coração, levantar-se, como se nada tivesse ocorrido, para descer no próximo ponto, já no Leblon.
Autômato, louco de vontade de ficar desesperado e inundar-me de adrenalina, elixir que poderia mudar aquela situação, como pude a segui.
A mulher de dois corações, sequer havia me notado. Na verdade, percebi até certo desdém quando escaneou de relance minha figura ao passar pelo corredor do ônibus pouco antes dessa esdrúxula situação.
Como iria reaver meu coração? Não era a primeira vez, no entanto, talvez desiludido, xoxo, aquele canalha de tanta personalidade acabava voltando ao aconchego de seu cômodo toráxico. Mas desta vez, repito, era diferente, ele nem olhou para trás ou mandou qualquer torpedo ou blue tooth sensorial. Preocupado, tive de seguir a portadora por mais de seis quadras não conseguindo, por mais que me esforçasse, vislumbrar qualquer estratégia de reaver aquela bomba de sangue. Ainda por cima, não descartava a esquizofrênica hipótese de que talvez, se eu fosse ele, talvez preferisse mesmo acalentar-me em um ninho de amor com meu par naquele corpinho tenro e bem feito da moça. Atentei, ainda frustrado pela ausência de horror, que se eu perdesse a bela de vista e o meu onipotente e egoísta coração, poderia morrer ou pior, vegetar no limbo sem qualquer paixão.
No entanto, do nada, como uma resposta divina, movida por um insight instintivo ou faculdade extrasensorial, sei lá, a mulher olhou para trás breve, mas avassaladoramente. Cheguei a passar mal, parecia uma labirintite e corando alegoricamente, senti que haviam voltado minhas emoções, porém, em duplicada virulência. Bossalizado, quase fui atropelado e conjurando o meu pulha órgão, apressei o passo e logo consegui chegar perto o suficiente para, então, estupidamente sentimental, incensar-me na aura do aroma emanado pela, agora, já convencido de sua infinita eternidade e plenitude, razão do meu viver. Refém, já não priorizava a repatriação de meu coração, queria o dela. Afinal, para que servem as emoções, senão para dar sentido e justificar qualquer tese? Começava enfim, a entender melhor aquele meu coração desertor.
Na cola visceral da minha mulher, atravessei o saguão do prédio que ela havia adentrado. Ora, em júbilo pela, enfim, volta triunfante da aparente sinergia entre lógica e a emoção, entendi que se eu a tivesse, por redundância, teria de volta o fujão, o coração dela e tudo o mais que poderia aspirar em gerações.
Apertando o botão do sexto andar dentro do elevador, ela sorriu para mim, só para mim, posto que não havia mais ninguém naquele nicho de revelação que nos levaria às alturas. Nervoso além da conta, como é normal em momentos decisivos da vida, estampei um sorriso meio tímido, desenhando uma feição mesclada de pedinte e vencedor. Já passava do segundo andar quando, sentindo então ser todo coração, como dizia o lúcido poeta, enchi-me de coragem e utilizando de um patético pretexto para decidir toda a minha existência naquele momento. Quase litúrgico, dirigi-me à Deusa, comentando tolamente algo sobre como são modernos os elevadores de hoje. “É verdade” respondeu sem maiores ares e certamente decepcionada com a minha profusa originalidade. Mas o meu, ou melhor, nosso coraçãozinho, parecia já realmente ter conquistado o seu par, pois a bela, até o derradeiro sexto andar, desenvolveu o apaixonante tema sobre elevadores, chegando a fazer comparações com dois outros futuristas que havia utilizado.
Claro, depois dessa, ignorando tudo o mais, saltei também no mitológico sexto piso e sentindo que o momento eterno se consagraria em segundos, desesperado, antes que ela e tudo o mais desaparecesse numa das salas ou apartamentos, perguntei seu nome. Já me apresentando, fiquei torcendo para que o meu controverso comparsa e sua amante, sincronizados, acionassem naquele exato segundo existencial todas as glândulas estratégicas, a fim de afogar aquela perfeição de endorfinas e demais essências de prazer e amor, emuladoras da predestinada união. Ato falho, Maíra (esplêndido e lírico nome) me cumprimentou e em luto, embasbacado, testemunhei seu desaparecimento em uma das salas, ironicamente uma clínica cardiológica. Tendo presença de espírito, entrei atrás dela, como se tivesse também uma consulta ou algo assim. Mas, rapidamente ela foi chamada para ser atendida nos consultórios internos, onde entrou após um afetuoso sorriso e um leve aceno. Meu coração, não preciso dizer, foi junto. Eu, de minha parte, fiquei plantado naquela câmara de torturas até não poder mais e desencarnei-me quando as atendentes me informoram que Maíra ficaria uns dias para uma bateria de exames e repouso. Será que descobririam o invasor nela e o extirpariam? Nossa...
Tentei visitá-la durante três dias, as atendentes, estas certamente sem coração, não me deixavam vê-la e nem davam qualquer informe sobre seu estado. No quarto dia o mundo caiu. Soube que havia sido transferida para uma clínica especializada em outro estado e só. As atendentes, além de insensíveis, eram incorruptíveis. Usei de todas as mídias, contatos e fontes, não consegui saber de nenhum indício onde o “meu mundo” estava internada.
Brutalizado, caí doente, acamado com um buraco negro varando o peito e sugando o que sobrava de alma. Sem sequer meio coração, tornei-me um espectro, um fantasma avesso ao mundo. Débil demais sequer para revoltar-me. Nem o passado fazia mais sentido e o que dizer de um futuro sem paixão. O presente, esse não me deixava em paz nunca.
Certa noite, meses depois, sem ânimo para dormir ou ficar acordado, alucinado pensei ter ouvido a cadência de umas batidas fracas em minha porta. Desenganado, não queria receber ou interagir com ninguém, nem que fosse a personificação da redenção. A insistência das batidas cadenciadas aumentou constantemente, até que pé ante pé, fantasma que era, decidi ir ver o que ou quem poderia estar perturbando meu torpor pelo olho mágico - que nada revelou. O pulso dos baques na porta do meu jazigo, no entanto, continuava. –“Moleques”, pensei e propenso a repassar um pouquinho de minha triste sina, abri num rompante a porta. Arfando, lá estava o meu algoz e acompanhado. Roçando-lhe o ventrículo com intimidade, achava-se outro coração, menor e mais delicado – de mulher e possivelmente da Mulher.
Foi apenas o tempo de divisá-los e sob forte impacto no meu peito, caí de costas desacordado. Abri os olhos no meio da manhã com uma sensação de vigor que nem lembrava mais existir e então, relembrando os fatos, procurei avidamente o casal por todos os cantos, nada. Então, parando um instante na janela – onde não ia a tempos - para refletir e respirar um pouco, pude sentir que a minha capacidade aeróbica estava como nunca e mais, claramente estava mais efusivo, tanto ou mais do que quando as minhas emoções tinham retornado em dupla virulência, injetadas na ocasião daquele avassalador olhar de Maíra. Era isso, agora quem tinha os dois corações era eu! Mas, onde estava Maíra? Será que os dois corações vieram para cá porque ela tinha falecido ou ela estaria no rastro dos andarilhos? Nossa, nem que fosse para me roubar de novo os dois imperiosos, pródigo em emoções, queria revê-la e quem sabe tê-la. Sonhei e sonhei.
Dois dias que pareceram décadas transcorreram até que Maíra apareceu boa de tudo.
Hoje, 11 anos depois, somos 5 corações saltitantes de alegria , pulsando vida e mais vida e muito amor!
É isso mesmo, o coração dispara e temos de ir atrás!