sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Ser Tão Não há mais lágrimas, quase só retidão. Até mesmo a noite teme a alvorada. Assim, levanto da rede, como deitei. Rezando e rezando para logo, por Deus, uma água cair. Apesar de sinceras as preces, bem sei, são em vão. Pois, inté as "asa branca", desse açoite, já bateram em revoada. No prumo desse vazio, aumentou a sede de ajuda, gente, água e nem sei. Entre as ossadas da criação e dos seus, foi pegando o matulão e reservas para "Sum Paulo ir. No caminho, vazias as taperas, deram-lhe estranha animação. Nem careceu qualquer pernoite. Esqueceu tudo e pegou estrada. "Altamira, no Pará, é onde se pode", ouviu logo na boléia: uma tal de Belo Monte, usina grande que tava empregando quem quisesse vir. João foi pra lá como pode e sem demora. Enfim viu muita água e fartura e arranjou logo uma locação. De um mestre de obras virou ajudante, alocado no canteiro da empreitada. Calejad o na vida, juntou-se à ode trabalhista dos chamados "fora da lei": grevistas que em luta por seus direitos estavam atrapalhando e após rebelião generalizada, teve de sair. Naquele ambiente e sem sustento, não foi difícil para o cabra arregimentar-se nas fazendas e grilar, traficar, cercear e - muito bem recompensado - mesmo matar como missão em prol da alienação de direitos e um ou outro lote. Foi virando - em sua antítese - uma espécie de "lenda". Solto no mundo para enricar, fez o que pode. Dizia: "até pra cima dos federais já botei". Mas, ainda mais lá, o mundo vai girando e João teve que dali sumariamente sumir. Fugido, foi parar numas matas, perto de uns índios da região. Foi ficando cada vez mais nas aldeias presente e passou a penosa e conscientemente refletir sua trajetória e vida passada. Já interagia a tempos com a comunidade dos índios quando se apaixonou por M'Bey, filha bela e altiva de um cacique a quem estavam ameaçando. João só pensou em reagir... Vivido e tocado, articulou lideranças, garantiu representação e organizou efetivo e moral combate aos lesivos e sua cambada. Mais que isso, num átimo de postura, pode negociar o "cumprimento da Lei" junto aos envolvidos, a fim da qualidade e integridade de vida dos índios garantir. Assim, baseadas na afeição, evoluem vidas, como a de João que como apaixonado amante, fez a "virada" de não mais temer a alvorada.

sábado, 27 de outubro de 2012

Hesse

Hesse Tomava já a vista, a dança dos sonhos. Na pista, pisadas pariam caminhos Por onde eu e o mundo, cada vez mais, nos achávamos E Deus meu, mais ricos, de certo, ficávamos. Ia assim, então, tudo aprumando, Ficando mais são e até o entorno melhorando. Mas o chão não é menor que o céu E não foi senão, bem debaixo de meu chapéu Que topei com meu maior inimigo. Quando me dei, já tinha me atingido, O cutelo de minha própria lavra. Rebrotava então o duelo que, palavra, Se acaba nunca e daí, por vez, só se vive quando se mata. De modo que na tua senda por aí, vale, já sabido, tratar a tua besta Com o zelo que lhes dão os vividos, que tem mais o que fazer Do que capengar esfolados pelo entrevero particular do ser. Vale mais de si se apartar: ou ao largo passar Ou de pronto a raiz lhe ceifar, antes que teu sonho possa vosmecê ameaçar.

sábado, 21 de julho de 2012

Aracê

Volta de lugar nenhum Depois reviraria suas rasas economias morais ou pediria aos céus dádivas à prestação, conjurando-se. Naquele exato momento, aquela confusão é que lhe fazia sentido, proporcionando referencial sensação de distanciamento de seus mais caros compromissos, desejos e heranças. A idílica cela de irresponsabilidade, fugaz, no entanto, comprimia-se escancarada aos imperativos grilhões de sua consciência, refém de si mesma. Mas, não valia, atinou, promover ou sofrer as conseqüências de uma acareação entre o então vivenciado poder de livre criação, dom e legado maior da expressão de vida, e o da opressão da eminente rotina covardemente inerte. Contudo, autônomo, o embate prevaleceu, imiscuindo-se com razão na profusão das dúvidas inerentes daquela noite de terça-feira. Exatamente isso, estava levando a vida que não queria com todo o sucesso necessário à perpetuação e ao desenvolvimento daquele paradoxo. Tinha de encontrar um meio de não comprometer nem uma ou outra dimensão e nem de torná-las artificiais ou mutuamente excludentes, posto que essenciais. Talvez fosse sua trajetória e/ou mesmo sua incapacidade de satisfação ou realização, o certo é que nesse jogo se entendeu inegavelmente auto-vitimado. Afinal, involutivamente, fadava-se a intermináveis ciclos de fulminante deterioração e incompleta e penosa recuperação. Como já havia passado por aquilo antes, não foi difícil divisar a reincidência do espectro do impulso impaciente e obtuso de compensar o tédio lacerante de seus condicionantes com imaturos e condenáveis rompantes cumulativamente auto-destrutivos. Sem titubear se convenceu que a liberdade e a satisfação estavam na disciplina de se alcançar novas perspectivas e vivências, pautadas no amor, na saúde e na diversificação e fortalecimento de suas capacidades. Já havia colhido frutos dessa prática e sua vida, concretamente, já gozava de novas e qualificadas oportunidades. Além do que seu tempo e dos seus corria e não queria encurtá-los mais, especialmente desperdiçando situações únicas e duramente conquistadas. Talvez fosse mesmo isso, a felicidade e a dignidade autênticas – há tempos desconhecidas e uma vez alcançadas e sabiamente sustentadas - pudessem proporcionar o sentido de uma vida mais prazerosa, plena, longa, fraterna e real. No fim, seria ao menos uma pessoa bem mais resolvida e melhor. Atenção no caminho de volta, concentrou-se. Eterno, sempre cruzaria trilhas insanas, especialmente no começo, onde desvios labirínticos convidariam mesmo a situações piores. Deveria optar sempre, evocando o insight primordial, programando-se. Concessões sempre desnecessárias só perpetuariam o agravo de tendências incontroláveis e efeitos nefastos. O mal apenas a si mesmo, argumento falho, sempre afetou tudo e atualmente e cada vez mais, uma última extravagância poderia dar em nada. Ocorreu-lhe que aproveitasse o incomum céu azul para vazar e seguir com fé a guia que já tinha em mãos, sabendo que seriam imprescindíveis alternativas de valor, conteúdo e disposição, além de paciência, coragem, desprendimento e principalmente responsabilidade. Não deveria menosprezar eventos, lembrando-se que tudo poderia estar por se perder em um átimo de segundo – como seria o amanhã? O vigor viria na medida dos passos certos. Foi, enfim, convicto, andando calma e progressivamente que viveu mudanças estruturais inimagináveis. Adiante, tornou-se outro novamente.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Amor

Com cerca de 40 minutos de oxigênio, aquele astronauta em sua primeira e longa missão, deliberadamente desligou seu aparato de comunicação, deixando perplexa a base internacional. A cerca de um quilômetro do módulo central, levianamente sentado numa encosta lunar, mirando a Terra e o Cosmos, tomado de tremenda emoção e indescritível maturidade, filosofou inédita e visceralmente – enfim isento de toda a gravidade - sobre a mais cara e intuitiva de suas emanações de sua então, claramente aceita, onisciente conjunção astral. Em tudo viu o Amor. Nas estrelas, na conquista tecnológica e, claro, em si e sobretudo no nostálgico astro de iridescente azul. Dali pode melhor vislumbrar o futuro e tecer a saga universal dos elementos e da vida. Sob a blindagem de seu escafandro sideral, assoberbou-se do óbvio: a harmonia dos elementos – e seu aprimoramento - era a chave e o resultado das relações de Amor em quaisquer dimensões. Como em um previsível insight pode com facilidade alinhar a benção de seus filhos nascidos de sua união com sua mulher de forma indissolúvel à, por exemplo, disposição exata do sol como fonte de energia da vida na Terra, entre outros fenômenos espirituais ou astrofísicos. Toda aquela beleza, aquele milagre, só poderia ser fruto de uma disposição sumamente harmônica que não poderia ser, palpitou então, consumindo sobremaneira seu suprimento de oxigênio e embaçando o visor, senão resultado de um romance cosmológico. Ficou ainda mais exultante quando refletiu que então não era então apenas um astronauta, mas um gameta, um zigoto da propagação da vida, da harmonia e, portanto, do Amor, por fazer parte de uma iniciativa que experimentava a adaptação de um banco de germoplasma e o subsequente experimento do cultivo de formas de vida em outros astros, entendidos, neste projeto chamado Gênesis, como óvulos a serem fecundados. Religando imediatamente seus dispositivos de comunicação, eloquente, voltou à base, sujeito, entretanto, à um tonitruante silêncio da equipe no módulo. Lá chegando e após o protocolo de ambientação, pode experimentar a mais crua noção do quão delicado é o precioso Amor. Uma contenda nuclear global, balbuciaram seus companheiros, calcinava a vida na mãe Terra de maneira total e irreversível. Espectrais, o efetivo do Gênesis e outros astronautas de outras iniciativas, derradeiros humanos, só puderam aglutinar-se na medida do possível e dar prosseguimento ao implante da vida no satélite e muito depois na própria Terra com porém, seminal e inquebrantável Amor. Séculos e séculos depois, esta pesarosa e vitoriosa saga ainda é recontada como um mito de referência à elevação e ao cuidado com o Amor por diversos povos de diferentes galáxias Universo afora.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Procurado

Procurado O olhar proletarizado não distingue mais entre sonhos vividos ou aspirados. Engrena um sistema, especialmente a partir de sua negação. São fotos, imagens, delírios, memórias desejadas e lirismos inócuos a povoar uma existência incompleta e, no entanto, conquistada. A autofagia da reprodução estéril só encontra lógica na perpetuação do próximo. Talvez a falta de saída me leve a tomar uma atitude, precária, de evasão. Não estou mais só e não merecemos isso...acho que posso fazer melhor. Como me afasto da construção, erigindo outra realidade – louvável – mas outra. Passos concretos no sonho Quanto tempo duram as ilusões – um lampejo eterno, a prisão de um insight, o bater de asas inexistentes. Rude esboço de traços tão livres quanto ignorantes, porém incapazes de extrapolar a moldura do papel.

sábado, 31 de março de 2012

mais pedaços

Um qualquer de vontade pura e consciência nula, cárcere da liberdade, sopro e fôlego das emanações, alheio por momentos eternos aos ditos dominantes, desfruta da companhia da solidão, do ostracismo e da escolha.
Pesada, flutua.
Inerte, viceja.
A incerteza concreta do sempre volátil
A neve ao sol é como a imaginação do desejo
Brilha a escuridão, dialoga a ignorância
Brutal sensação de imatura solução.
Tudo, sempre inacabado
Um copo, dois, três, cinco mil anos pra frente, pra trás – o que importa.
Vácuo de si
Sob o sol, a noite e a paixão.
O momento completo, sempre fugaz, pertinente e incômodo de interminável começo e recalcitrante início agora permanecia.
De seus olhos brotavam flores, frutos
De intenso desejo,

Partes esparsas da confusão lúcida inalcançável
Os sentimentos em confusão e profusão nada diziam e tudo completavam em silêncio.

sexta-feira, 16 de março de 2012

novo descaminho

Naquela noite não iria encontrar os amigos,
Refletir sobre o dia ou se preparar para o amanhã,
Ler um livro ou ver um filme
Beijar a mulher ou sonhar.
Sem palavra, como que enfim reativo à uma situação limite,
bateu a porta atrás de si e
desceu as escadas para nunca mais voltar
O mesmo.
Conforme ganhava a rua,
Foi se dando conta de que a caminhada
Tinha começado muito antes
Impulsionada, aparentemente, por uma latente
Necessidade de independência do
Implacável automatismo da inerente
Capacidade de conotação do bicho homem
A qualquer fenômeno.
Havia se cansado daquele carrossel de
Lógicas, dogmas, estratégias e interpretações
que tecem realidades e dão sentido à vida.
Afinal, como seria a realidade sem nossas perspectivas?
Assim embalado,
Sem rumo, causas ou conseqüências
Seguiu, passo a passo, dissipando-se.
Nem soluções ou problemas
Memórias ou aspirações
Pensamentos ou expressões
Mesmo o presente não poderia contar
Atravessavam-lhe, então, incólumes, sucessivas paisagens e
Dinâmicas nas quais, por sua vez, já não figurava em absoluto.

O passo

Por opção, havia aderido à luta pela equidade e, portanto, singrou a pena das tempestades, desertos e solidões da faina humana. Foi moeda, ferida e esperança. Acertando bem menos do que foi acertado, perdeu-se, assim, de si, rápido e durante muito tempo, esvaindo-se tal foligem, como a maioria. Entretanto, refugando em suas opacas miragens, seus sonhos não desistiram dele. Não foi senão sua coragem e humanidade que os disciplinaram em reagir, pacientemente, de modo a aprumar-lhe as idéias e as ações, a fim de perseguir, astuto e disposto, sua sina – de viver e, desejosamente, gerar vida.
Exigindo constante despertar, essa parte do caminho foi ainda mais difícil, uma provação. Até que, então, quase sem saber como, acordou em uma manhã como se fosse - para sempre - uma nova e plena vivência. Respirou ávido o ar salgado e úmido de um arquipélago do Pacífico, sabendo à mata e mar e pisou, descalço, a areia branca e fina, leve, como se estivesse planando. Beijou o sol antes que este o fizesse e, sentindo-se como uma estrela, imergiu no azul das águas como um espírito no éter. Pulsava-lhe o coração por todos os poros e atinos, cadenciado pelas ondas e correntes. Suas retinas projetavam uma miríade de cores e formas e sua pele e movimentos, feito o mar, espraiavam-se, perfeitos e livres. Diluído, fluido, percebeu-se, então, completo – a ponto de sublimar-se e emanar, feliz, gratuita e farta positividade. Afinal, então, adivinhava que mesmo em terra, o mar nunca mais lhe deixaria, assim como no oceano, o sol jamais lhe abandonaria.
Virou peixe, concha, pedra, chuva, palmeira, caranguejo, besouro, tempo, onda, tempo, mito, resto e, enfim, mais do que gente, encontrou a si mesmo. Concluiu ser imortal, apesar de saber-se finito fisicamente. Porém, longe de se iludir, sabia que essa condição jamais seria suficiente para combater, minimamente, a sombra apocalíptica que vinha tragando a séculos sonhos, paraísos, labores e, enfim, a expressão da vida. Não podia mesmo, de fato, esquecer os guetos, os fundos de investimento, o gado, a fome, a África, a guerra, a extinção das espécies e dos mananciais e, sobretudo, a fumaça que brotava da fundição de tudo e todos em insano capital.
Contudo, sob pena de morte, não poderia voltar à cena pregressa, ativista, no vértice do turbilhão. Mesmo que o cenário fosse de hecatombe nuclear. Lá fraquejaria antes e seria o fim de seus esforços. Poderia contribuir muito melhor ali, onde era incomparavelmente mais forte, perto do sopro divino, protegendo-o como pudesse do hálito da besta. Assim era sua natureza e dessa forma, seria capaz dos maiores sacrifícios.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Um lugar

Palau
Um lugar
qualquer
Um tempo
De tudo
Para viver
Esquecer
Ser
Senda
Pouso
Das Cajaíbas
Até
Onde der a vontade
De ter vontade
Ou Quem sabe
O vento me leva
Não importa

Aqui e agora
Lá, ali, acolá
Nunca, sempre, amanhã
Junto
Não importa

aqui e agora




um pouco
de muito
talvez seja mesmo
melhor do que
um muito de pouco
de nada
disso tudo

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

D. Maria

Dona Maria

D. Maria levanta antes do galo mais afoito e deixa o marido dormindo na rede em que com ele dividia. Enquanto faz o café e põe bolachas na mesa que fica na parte de fora da casa, extensão de terra batida e coberta por uma lona, ela vai programando como será o dia. Sua primeira preocupação fragmenta-se em muitas outras. Mas não tem mesmo muito tempo para refletir. Logo os filhos e o marido erguem-se com a aurora e rápido, em tácito acordo, todos vão para a praia. Ela deixa as crianças mais novas com sua sogra e junto com as mais crescidas, vai “despescar” o “curral” enquanto que o marido, seus dois filhos mais velhos, um primo e um vizinho arrumam a faina de mais uma jornada de pesca no “mar de fora”. Dois sobrinhos, que vivem com a família adentram o “mangal” atrás de caranguejos e turus para subsistência. Ainda antes das 7h da manhã, D. Maria e sua “equipe” trazem a “produção” do curral e de imediato, enquanto os filhos se encaminham para a escola existente, os peixes considerados mais nobres são por ela negociados a baixo preço com os “marreteiros” locais, pois não há “geleiro” na área. Nesse mercado informal, D. Maria e suas colegas em situação semelhante, aproveitam para pôr a conversa em dia e combinam de à noite, estarem presentes a mais uma reunião da Colônia de Pesca que acontecerá. O restante dos peixes é levado para evisceração e salga, também feita por ela e pelos familiares aptos e disponíveis antes do almoço, que conta com sua participação na elaboração. No início da tarde, em meio às necessidades dos mais novos e a percepção de que seu reumatismo está aumentando, D. Maria organiza uma pequena “linha de produção” com os próximos, para reparar os apetrechos que estejam em mal estado. Após o que, pode optar em ajudar no “mutirão familiar” da “farinhada” ou mais comumente, no da arrumação da casa e da “bóia” e então, aguardar a chegada da embarcação em que o marido trabalha na boca da noite. Quando o barco aporta na praia, dependendo da maré, a família ajuda no desembarque do pescado e novamente, o peixe de primeira é negociado de pronto. Muitas vezes as mulheres intervêm na barganha da produção talvez por terem freqüentado por mais tempo o colégio (quando existente) do que os homens, arregimentados para de dispersar na pesca no mar desde cedo. Após o possível acondicionamento do pescado e um banho de água de poço, o marido e seus companheiros (boa parte com câncer de pele desenvolvido) podem embicar para uma birosca, onde ficam até a hora em que o pessoal da Colônia se reunirá, enquanto que D. Maria, junto com as outras mulheres da casa, vão cuidar das crianças e finalizar o preparo da janta. Após o que, D. Maria e o marido, um tanto cansados, vão para uma reunião da Colônia. Já meio que acostumado, o esposo percebe que sua mulher e suas amigas vêm, na verdade, tomando a iniciativa em muitas ações estratégicas da Colônia e sobretudo, vêm apresentando e executando soluções plausíveis em terra. Contudo, fica surpreso em ouvi-la, do alto dos seus 50 anos de muito trabalho duro, falar que as mulheres irão montar uma associação de gênero, ligada à sua parcela de labor com os recursos naturais – complementares de insumos na unidade familiar - alegando que não têm sido devidamente amparadas em seus direitos trabalhistas, de saúde, previdenciários e que se consideram, sobretudo, personagens indispensáveis à reprodução do sistema em que vivem - de economia familiar. Como saldo e apesar de atritos esporádicos, o orgulho da comunidade enleva-se, pois há certeza de que se renovam e ampliam-se suas forças. Antes das 21h, a rede do casal já range de novo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Um dos oito olhos da aranha

Um dos oito olhos da aranha no ângulo do teto viu...

Assim que ele adentrou a porta, totó sobressaltou-se e alegre, abanou vivamente o rabo e como em transe, escancarou um sorriso com meio palmo de língua pra fora. Não demorou muito, cercou a “chefia” e danou a ladrar profusamente, enchendo a sala com seu tudo contar e perguntar. Lisonjeado pelas lambidas na mão, “chefia” deixou-se relaxar e alienado, aproveitou aquele momento de glória para refletir onde estava e do que havia se livrado nesta vida. Todo aquele singelo momento amplificou-se quando em uníssono, totó e pupi - que arfando e fazendo mimos, finalmente tinha conquistado a simpatia do grupo – aconchegou-se no recinto. Que beleza! Como que amestrados os dois animaizinhos faziam tudo numa inacreditável sincronia, que quando não era cadenciada - puxa - se completava. Era demais, tal performance tinha de ser espalhada para os outros proprietários. Não só como trunfo da capacidade de domesticação da “chefia”, mas principalmente como exemplo a ser seguido pelo resto da bicharada do lugar.

bom dia

Fim do dia...
Mais um, nesse mosaico de unidades trivialmente inigualáveis, onde sempre falta um pedaço ou aparece outro, insuspeitadamente ou não. Contudo, lá está ele, sustentando a estrutura do futuro e fazendo parte do que se foi e se é. Nesse pictograma, mesmo que não se dê continuidade, a sensação de algo inacabado é recorrente. Entrando na dimensão da mesclagem dos dias de cada um, percebe-se que de certa forma, como num fractal, o padrão se repete, agregando, no entanto, mais dinamicidade de interações. Assim, o quão fazemos parte uns dos “tijolos” que compõem o outro ou sua trajetória? Claro está que “dias” ou “tijolos” são unidades totalmente artificiais e servem apenas para fins didáticos, devendo ter conceito extrapolado para a relatividade das razões sem perder, no entanto a praticidade da percepção dos vetores de influência. Mais sentindo que teorizando, como se fosse possível um juízo de valores, trafego tentando cambiar heranças de componentes e de suas combinações, especialmente com a vida. Somos todos cada um.
Abraços

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

somos todos iguais

Somos Todos Iguais



Temos versões diferentes, mas uma mesma história

Temos questões existenciais similares

Viemos, vivemos e vamos juntos

Somos irmãos

Podemos amar-nos

Valorizamos virtudes consagradas

Comemos e bebemos na mesma mesa

Impactamos o mesmo planeta

Padecemos de males universais

Guerras são sempre péssimas

Ninguém tem direitos sobre outrem

Temos a mesma responsabilidade

Temos todos o dom de melhorar

Podemos decidir fazer a diferença

Podemos ajudar os outros

Há lugar para todos

Existem alternativas mais sustentáveis

Precisamos de todos

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Uma manhã

Naquela manhã, conforme o asfalto e os prédios
Iam dando lugar à mata,
Fortalecia-se a liberdade, a euforia e o altruísmo
na jovem caravana.
Nesse espírito, uma vez dentro da floresta,
Tudo pareceu reveladoramente conhecido.
Cada elemento, paisagem, amigo ou tempo tinha um pouco de nós
E a gente um tanto deles.
Árvores, consciências, águas, cores, sonhos, sons e sorrisos
Misturavam-se, pudemos sentir, emanando amor, vida
E mais vida.
O mundo tinha ficado melhor.
Desde então, repetimos e ampliamos muitas vezes
Essas jornadas astrais e hoje,
talvez mais do que nunca e
cada um à sua maneira,
essa gente vem cultivando a natureza
Dentro, envolta de si e onde mais puder.

Homem janela

Homem janela

Emoldurado olhar,
Invadido de paisagem,
Evadido em desejos.
Seus cotovelos calejados,
Sustentavam as inúmeras
Viagens e projeções,
Daquela janela universo afora.
A lógica transcendia e
Seus olhos, boca, coração
E tudo o mais, pairavam
A funcionar como janelas.
Janelas, bem entendido,
paradoxalmente,
como âncoras de sonhos,
como livre prisão.
Não importava onde
Pairasse,
O retângulo ordenava
Quaisquer percepções.
Um dia, pulou da janela.
Aqueles segundos
Valeram-lhe a vida.

Meio de vida

Meio de vida

Minha gente, o que mais se parece com o fim não é o começo?
Emendando essa ladainha, até doutor sai dizendo: acho que foi amanhã...
Ontem será um novo dia...
Sei lá.
Assim, em grata prece, tudo o que peço
É só mais uma manhã.
Pelo menos meia, que seja, por carestia.
Por louvor, meu Bendito, antes da derradeira, pra já!

Quem sabe, orando assim,
não existo novamente?
Não que eu me arrependa
Do que não fiz nesta existência,
Mas, valha-me meu Padim,
É tudo tão de repente,
Que de prenda,
Só levo a querência.

Se daqui sigo pra melhor,
Repito que não sei
nem de onde vim,
menos, então, pra onde vou.
Isto dito, por gentileza, concedam-me atenção, cara senhora, distinto senhor,
Pois, muito minhas palavras pesei
Pra aconselhar, com licença, que o que vale, enfim,
É o que no meio dessa vida, feliz, se partilhou.

O meio da vida, a gente sabe, é diferente.
Passa, matreiro, por entre os depois e os antes,
É o que faz sentido.
Não se esquece jamais.
Sempre potente,
Une, justo pelos meios, amantes,
Deixando o baile perfumado,
De trás pra frente e de frente pra trás.

Então, vamos e venhamos, cumadre e cumpadre,
Tem mais meio do que início ou final
Do que se valer ou perder.
Sabe disso qualquer cabra.
Mesmo um padre,
Regrado pelo astral,
Com pendão, vai lhe dizer:
“A vida é aqui e agora!”

madruga interminável

Aquela madrugada de terça-feira na Asa Norte do Plano-Piloto da capital do país, seria apenas mais uma daquelas em que a minha indigência ficava mais patente, relegando-me à penosa consciência de minha nulidade, apesar do incomum frio marcar mais ainda o quadro. Nesses momentos, mendigando vestígios do que fui antes de cair nas ruas, distraía-me lendo com afinco publicações ofertadas gratuitamente nos pontos de ônibus e assim, sempre que possível embebedando-me, acabava sentindo que restaurava um pouco de minha identidade.
A singularidade de minha situação, de um vagabundo letrado de meia-idade, no entanto, mesmo consistindo em excelente argumento para roteiros ou teses, não tem relevância, pois é sobre aquela noite surreal que quero contar. Às três da manhã, com o ego ébrio e mais refeito, tomei coragem e arrastei meu surrado carrinho de feira abarrotado com meus preciosos pertences pelas quadras em direção a um abrigo seguro. A cidade literalmente dormia e afora ícones da fauna noturna, não havia viva alma. Nem os gatos estavam se arriscando e assim, não foi difícil reparar que bem menos do que de costume, mesmo para um início de semana, pouquíssimos apartamentos mantinham as luzes acesas.
Na calçada em frente a um desses prédios das quadras habitacionais, parei para acender um toco de cigarro que havia guardado. Além da cena do porteiro zelando pelo seu próprio sono, detive minha atenção em um apartamento do terceiro andar que era o único com a luz acesa em toda a redondeza. Dando contexto à nicotina, pensei: que estaria fazendo o pessoal lá a esta hora nesta estrela solitéria que não está dormindo? Se fosse eu, continuei, estaria bem quentinho na cama, curtindo meu quinto sono. Aproveitando a parada, desviei o olhar para desenterrar o resto da pinga, embutida no carrinho. Quando elevei minha cabeça para um derradeiro gole, um tanto surpreso vi que agora era um apartamento do segundo andar que tinha a luz acesa enquanto o do terceiro estava escuro como a noite.
Curioso, mantive o olhar no recinto iluminado e então, aconteceu. Quase perdendo toda e qualquer noção de equilíbrio físico e mental e, no entanto, mais maravilhado do que assustado, acompanhei o cômodo aclarado bailar por todo o concreto do prédio, tal vaga-lume, transitando, já ensaiava eu, por entre mundos extraordinários ou reunindo-os. Seguido por uma coreografia de contorções de meu rosto, luzidio, o apartamento subia, descia ou arremetia-se pelas laterais agora com velocidade impressionante.
Petrificado pelo meu testemunho, meu corpo simplesmente não obedecia aos meus reflexos de fuga quando pulverizando qualquer nesga de lógica, o apartamento luminoso descolou-se da construção, esvoaçando pelo céu e ruas em evoluções meteóricas.
Proporcionando nova e estupidificante dimensão, aquela visagem mergulhou em minha direção e literalmente, através de mim, varou-me uma sacada com plantas e então uma sala, iluminada por uma lâmpada incandescente amarela, onde, como em um painel de controle, sentado na cabeceira de uma mesa de seis lugares, um homem também de meia idade, trajando apenas uma bermuda, escrevia calmamente à lápis nas páginas de um simples caderno.
Não tive como recusar seu convite gestual para que sentasse ao seu lado na mesa e então, sem menor surpresa, fui sendo tomado por um sentimento de paz inexplicável e assim, foi se estabelecendo uma uníssona dialética entre nós enquanto a sala nitidamente acelerava seu vôo, crescentemente de forma menos material e mais sensorial. À altura e no decorrer do fantástico evento, não me surpreendeu que nossa viagem tivesse como destino um verdadeiro Graal universal: um exercício sobre o entendimento do mecanismo da “perfeição” em nossos atos, posturas e ideologias, uma vez que afinal, errar é humano.
Assim, não visitamos lugares ou tempos, vagamos por cenários conceituais, experienciando pólos completamente antagônicos, complementares e suas matizes de intergradação de contextos. Procurando meios de processar informações, as razões, paixões e dúvidas sucediam-se efêmeras ou perenes em panorâmicos caleidoscópios que mesclavam-se ou fragmentavam-se, empanturrando-nos de infindável universo de expressões e compreensões A definição do que é ou não “verdade”, saltou-nos como uma via para o estabelecimento da “perfeição”. Porém, percebemos neste estágio, que a “verdade”, dada a profusão de variáveis, parecia tão inerente e aceitável quanto a ignorância ou mesmo quanto à imaginação. Quando tivemos a idéia de nos multiplicamos e diversificamos imensamente, a fim verificar diferentes escalas e desdobramentos, algo pareceu ter mudado. A simulação de diferentes abordagens culturais, embasadas em paradigmas diversos, trouxe respostas originais e complementares, mostrando que a “verdade” é um conceito que pode ser produzido e massificado.


antes de procurar um abrigo seguro
potencializada pelo incomum frio seco do inverno do Planalto Central.
Apesar da sensação potencializar-se pelo intenso frio Apesar do inóspito frio parecia-se com muitas outras
Ostentando minha costumeira eloqüente invisibilidade, meu calejado corpo seguia para o abrigo

taxiando

Taxiando

Sentado no banco de trás do táxi, Brasília parecia-se com o mundo naquela bela tarde. A animada e despretensiosa conversa entre mim e o motorista cearense sobre a canseira do trabalho, a proximidade das férias, a família, as origens e o rumo da corrida, parecia harmonizar-se à paisagem, dando-lhe contornos mais interativos.
De repente, ignorando o sinal vermelho que nos detia, os olhos perdidos e o corpo retorcido de um indigente de meia idade epilético em plena crise, esparramado na calçada ao lado, avançaram para dentro do carro e de nossas convicções, remetendo-nos abruptamente, em muda eloqüência, à perturbadora certeza do fim. Em estertor, o homem ainda tentou se levantar, sem sucesso, enquanto chegavam paramédicos, arautos de uma esperança qualquer.
A luz verde do sinal e o movimento dos carros à frente despertaram-nos e seguimos, deixando a cena inacabada inocular-se em nós. Lembro que cruzando o semáforo, à cerca de 50 metros adiante do local, percebi, tomado certamente pelo efusivo estado de alerta, que as pessoas na calçada conversavam ou caminhavam sem reagir ou muito menos saber do acontecido.
Refleti, totalmente impressionado pela sincronia entre as expressões vida e morte, impulsivamente, que um momento – em sua passagem – parecia ser bem mais rico que um local no intervalo delimitado ou que uma unidade de tempo abriga maior variação e volume de eventos durante sua passagem do que uma unidade de espaço naquele período.
Pareceu-me, claro, recuperado, trivial o raciocínio, afinal o tempo está em todos os lugares simultaneamente e não o contrário. Afinal, naquele momento certamente estrelas explodiam, bisões pastavam e certamente muita gente nascia, crescia e morria. Por
outro lado, aquele lugar, em diferentes períodos, permaneceu acumulando performances durante a rolagem do tempo, abra ngendo enorme diversidade de eventos à sua maneira.
Apesar de me questionar se é possível existir tempo sem localidades ou sem mim ou vice-versa qualquer coisa, além de outras idiotices suscitadas ou pela experiência, numa perspectiva pessoal e certamente mais interessante, aquela vivência e seus instante e local permanecerão comigo – e com os que a vivenciaram - de alguma forma, diversificando imprevisivelmente qualquer definição ou desdobramento da relação entre o tempo, o espaço e vivências. Dificilmente conseguirei extrair algum conceito válido disso tudo, mas a riqueza do universo e o valor das experiências ficaram bem mais claras, fomentando, especialmente, a gratidão pela morte continuar me errando por mais tempo e por onde tenho andado. Assim, de maneira redundante, certamente é próspera nossa qualificação do uso do tempo e do espaço, mormente de forma coletiva. Essa quase idiota obviedade, resultante da mirabolante interpretação – naturalmente em muito emotiva – de uma
vivência onde a vida e a morte se acotovelaram, só reforça o seu valor.
Talvez arejados pelo vento do carro em movimento e perto já de meu destino, a prosa instintivamente evitou temas letais e voltou às amenidades do início da corrida. De minha parte, agora refletindo, não poderia esperar que chegasse a sendas tão diversas naquela viagem de taxi numa tarde no Plano Piloto.

início fim e meio

Corpos candentes
Chacoalho meu pequeno cérebro tentando descobrir alguma origem ou mesmo fim
Só posso conceber uma providência qualquer também destituída de uma explicação plausível de Genesis. O fato da completa ignorância, apesar de pouco influir no cotidiano, realmente perturba. Energia, matéria, atração, condensação, repulsa, explosão, big-bang...como começou? Qual foi a centelha inicial? Parece tudo um sonho, como a nossa própria existência. Mas mesmo um sonho, por mais etéreo, tem uma origem corpórea e energética. Bom, parece que o que nos resta ou se descortina, é trabalhar com o que temos para, de alguma maneira, perpetuarmos e difundirmos aquilo que entendemos como o produto maior ou bem supremo de toda esta conjuntura e trajetória: a vida.
O conceito de vida pressupõe, portanto, a coexistência de muitas formas expressão vital, uma vez que todas exprimem, digamos, essa mesma característica, evidenciada especialmente pelos processos de reprodução, crescimento e maturação. No entanto, somos mais sensíveis, em geral, às formas de vida assemelhadas. Assim, somos plenamente capazes de extinguir formas de vida diferentes em prol da manutenção de nossos congênitos.
A discussão prossegue com o conhecimento genético e outras fonteiras...mas agora estou cansado...

sambrasil

SamBrasil

Sob o contagiante samba-enredo da BM&FBovespa e coalhado pela nata do baticum global e para sua redenção, o carnaval corria solto e libertário na apoteótica Pindorama. Nos vais e vens amazônicos, paraguaios e platinos, flertando agendas multilaterais, inebriada e provinciana, a nação celebrava a – sabidamente sempre efêmera - fantasia faustiana na catarse de um gol de placa no pré-sal ou na sacralidade do bento suor do rabo da mulher-melancia. No ambiente privê dos camarotes palacianos, foliões da Vale e de outras multinacionais, além de passistas e parasitas do establishment, diluíam-se em negociáveis rebolados ao sabor de uma miríade de repertórios ego-políticos locais. Enquanto isso, na passarela, só alegria: democratizando mesuras, sorrisos e salamaleques, especialmente a potentados, os notáveis da comissão de frente inauguravam o show da emergente pátria. Na sequencia, ofertando incalculável espetáculo, o desfile da ala das commodities incendiava o rincão e deslocava multidões, esbanjando luxúria enquanto a bateria do PAC, travestida em inacreditáveis cargas tributárias e sob a égide do Banco-mor, ditava o ritmo sem pedir licença ou aprovação, explodindo em dourado, gemas e confetes e serpentinas de gado, soja, milho, sorgo e cana - esta última, então, era a glória. Capitalizando sobremaneira os créditos da ala precedente, os poucos, porém históricos integrantes do bloco dos latifundiários junto à União dos empreendedores privados mostraram mais uma vez ao que veio, mesmo sem inovar: autodenominados como esteios da nação, distribuíram balas, algum dinheiro e principalmente, cuidaram do patrimônio alheio como se fosse seu. Energia não faltava à comemoração, pois, mesmo se tivesse apagão, os radioativos, metais e eletrointensivos varavam continentes no couro da geral e de seus descendentes, fazendo zoar alto o choro das cuícas, marcado pelo surdo vácuo da exclusão e extinção “megasóciobiodiversa”. De repente, uma série de paradinhas, muito bem colocadas e enxertando o visceral balanço do funk na levada da avenida, promoveu átimos de silêncio e atenção que remetiam a psique do povo, intuitivamente, antes às cachorras e fauna acompanhante. Especialistas correlacionaram, aí, então e definitivamente, a excitação do evento ao aumento do aquecimento global – porém, até aí morreu Neves e o samba não pode parar, como dizia o poeta. Portanto, na patriótica farra, ninguém se deu ao mínimo estorvo de intuir em meio ao gozo comunal, que, afinal, as mazelas tornariam-se as etéreas purpurinas que brilhavam mesmo de relance e “psicodelizavam” a festa. Colorindo indelevelmente o apogeu da saga, carros alegóricos-partidários, encenando mitos de abundante e siliconizada fertilidade, ofertaram, dadivosos, todos, escandalosas performances de ícones nacionais, mascarados e nus em pelo. A platéia, claro, assaz identificada e eufórica, cheia de orgulho da raça, cagando solenemente para inevitáveis ressacas, faturas ou falências, entoou em transe seminal os mantras carnavalescos, certa de sua fé na providência e de olho mirado, entretanto, complacente e credor, às evoluções do Mestre-Sala e da Porta-Bandeiras – diretamente eleitos pelo voto obrigatório. A certa altura, marcada por mirabolantes efeitos de fumaça da galera das cracolândias, a coreografia permitiu, para assombro geral, o livre trânsito dos brincantes do tráfico, mesmo daqueles de lícita fluência no tabuleiro mundial – apareceu todo o tipo de gente, impressionante. Então, gerando incondicional insigth, a bola finalmente tufou a rede no Maraca de cada um quando, fardada ou não, de terno, tayer ou repleta de crianças que de futuro só teriam um tênis Nike e formigas na boca, as milícias e seus mandantes estatais chegaram de bicho, como num arrastão, disparando incessantes salvas de seus tamborins automáticos, atualizando toda a cadência da escola e secretando, enfim, a siamesa essência da massa – o que provocou um uníssono de suspiros de alívio nos que se arriscaram ao menos uma vez na vida a se perguntar “de onde vim”, “quem sou” e “pra onde vou”. A esperada ala das putas botou o santo no quadro quando beatizando de vez a preferência nacional e mimetizando-se a quaisquer dos devotos, promoveu novo espasmo de suspiros de auto-reconhecimento – tocante no conjunto da obra. Nesse momento, incrédulos e propensos até a raiz, os gringos se renderam por completo, fundindo-se, celerados, aos humanos, demasiadamente humanos e celebrando - em júbilo e tentando extipar seus recalcitrantes ônus (a)morais - a permissividade de paradigmas e fronteiras dos trópicos. Sorrindo até suas contas-laranja e abençoando aquela data e seus paraísos fiscais, os jurados, cúmplices bem-aventurados, em liturgia semi-monástica, elevaram, naturalmente, suas notas acima das possibilidades de crédito, levando a população a, tediosamente, conjurar que o espólio alheio era o meio ideal de se ter sucesso de vida, abstração logo substituída por uma suruba – com muita camisinha jogada sensatamente e de última hora pela produção - até então tácita e prontamente generalizada. Se alguém ficou de fora, corria na mídia cruzada, é porque não foi convidado é ruim da cabeça ou doente do pé. No entanto, economias centrais, on line, reféns da autenticidade da expressão e de sua aderência, inseriram, à revelia de suas limitações metafísicas e no momento propício, o registro do bacarnaval, como, por exemplo, a obra de Sheakespeare, como uns dos cinco maiores legados da espécie em sondas extra-galáticas, argumentando, salvo melhor juízo, que se tratava de uma estratégia reprodutiva esplendidamente aquilatada. O Universo, então, deve ter virado um eterno Big-Bang – salve o cosmosamba.

mais África

A um tempo, como numa benção, mãos esqueléticas, incrédulas, enchiam de comida bocas ávidas, ressuscitando mesmo desenganados. A sede, de maneira inconcebível, escorria-lhes, enfim, pelos cantos, transbordando saciedades. De poços abismais, seus olhos passaram a irradiar intensa luz. Suas inúmeras chagas, então, extinguiram-se e de forma ainda mais surpreendente, ódios, penúrias e cobiças converteram-se em identidade e amor coletivo. Histórias e futuros foram melhor compartilhados e fundou-se um povo em essência, enfim, mais humano, igualitário e ciente. A decorrente democratização de ciências, políticas e artes fortaleceram ideais de uma concepção e possibilidade de mundo, então, particularmente, mais fraterno. Irmanada, a natureza ali vicejou, paraisando o ambiente. Logo, surpresos e abalando-se pelo inusitado e revolucionário ensaio, déspotas de potentados vizinhos promoveram – e promovem - forte guerra ao abençoado enclave, onde quer que ele esboce expressão. Afinal, como de praxe, antes da insuspeitada e localizada benção, o poder poderia até emanar do povo, mas, sem qualquer outra possibilidade, deveria – e é - ser exercido exclusivamente por capazes assassinos e seus mandatários. Assim, concentrando os esforços bélicos, econômicos e políticos de seus adversários, a fraterna nação foi varrida do mapa, mas, ainda abençoada, sua filosofia igualitária vem fertilizando, cada vez mais, a jornada humana. Entre as inconseqüentes e mimadas crianças e seus brinquedos nucleares, seus quartos desarrumados e seus desperdícios letais e suicidas, organizam-se, necessariamente e de forma engajada, ainda menos do que necessárias, pessoas, esforços e iniciativas espiritualizadas e evoluídas. No que vamos nos transformar – e ao universo e suas formas de vida - é essencialmente uma questão de tempo e de capacidade de transformação. Entre a capacidade mais bestial de se promover um holocausto ou a sustentabilidade global, vivemos a nóia ou o sonho de um mundo melhor. Cabe a nós decidir e fazer.

África

Africanês - apocalíptica esperança

Tenho 4 anos.
Terei 4 anos.
Apenas.
Não mais e por sorte não menos.
Já fui longe.
Outros sonhados, previstos, uterinos,
doentes, abortados, imaginários,
nem em contas amontoam-se.
As imagens dos meus olhos secos
não digitalizam mais comoções,
antes e sobretudo,
perpetram-se no colóide da baba
sedenta ou adornam quixotes e ilíadas.
Serei, certo, menos muitos.
Afinal a terra a qual pertenço não nos pertence.


Sentimentos locupletantes