terça-feira, 26 de junho de 2012

Amor

Com cerca de 40 minutos de oxigênio, aquele astronauta em sua primeira e longa missão, deliberadamente desligou seu aparato de comunicação, deixando perplexa a base internacional. A cerca de um quilômetro do módulo central, levianamente sentado numa encosta lunar, mirando a Terra e o Cosmos, tomado de tremenda emoção e indescritível maturidade, filosofou inédita e visceralmente – enfim isento de toda a gravidade - sobre a mais cara e intuitiva de suas emanações de sua então, claramente aceita, onisciente conjunção astral. Em tudo viu o Amor. Nas estrelas, na conquista tecnológica e, claro, em si e sobretudo no nostálgico astro de iridescente azul. Dali pode melhor vislumbrar o futuro e tecer a saga universal dos elementos e da vida. Sob a blindagem de seu escafandro sideral, assoberbou-se do óbvio: a harmonia dos elementos – e seu aprimoramento - era a chave e o resultado das relações de Amor em quaisquer dimensões. Como em um previsível insight pode com facilidade alinhar a benção de seus filhos nascidos de sua união com sua mulher de forma indissolúvel à, por exemplo, disposição exata do sol como fonte de energia da vida na Terra, entre outros fenômenos espirituais ou astrofísicos. Toda aquela beleza, aquele milagre, só poderia ser fruto de uma disposição sumamente harmônica que não poderia ser, palpitou então, consumindo sobremaneira seu suprimento de oxigênio e embaçando o visor, senão resultado de um romance cosmológico. Ficou ainda mais exultante quando refletiu que então não era então apenas um astronauta, mas um gameta, um zigoto da propagação da vida, da harmonia e, portanto, do Amor, por fazer parte de uma iniciativa que experimentava a adaptação de um banco de germoplasma e o subsequente experimento do cultivo de formas de vida em outros astros, entendidos, neste projeto chamado Gênesis, como óvulos a serem fecundados. Religando imediatamente seus dispositivos de comunicação, eloquente, voltou à base, sujeito, entretanto, à um tonitruante silêncio da equipe no módulo. Lá chegando e após o protocolo de ambientação, pode experimentar a mais crua noção do quão delicado é o precioso Amor. Uma contenda nuclear global, balbuciaram seus companheiros, calcinava a vida na mãe Terra de maneira total e irreversível. Espectrais, o efetivo do Gênesis e outros astronautas de outras iniciativas, derradeiros humanos, só puderam aglutinar-se na medida do possível e dar prosseguimento ao implante da vida no satélite e muito depois na própria Terra com porém, seminal e inquebrantável Amor. Séculos e séculos depois, esta pesarosa e vitoriosa saga ainda é recontada como um mito de referência à elevação e ao cuidado com o Amor por diversos povos de diferentes galáxias Universo afora.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Procurado

Procurado O olhar proletarizado não distingue mais entre sonhos vividos ou aspirados. Engrena um sistema, especialmente a partir de sua negação. São fotos, imagens, delírios, memórias desejadas e lirismos inócuos a povoar uma existência incompleta e, no entanto, conquistada. A autofagia da reprodução estéril só encontra lógica na perpetuação do próximo. Talvez a falta de saída me leve a tomar uma atitude, precária, de evasão. Não estou mais só e não merecemos isso...acho que posso fazer melhor. Como me afasto da construção, erigindo outra realidade – louvável – mas outra. Passos concretos no sonho Quanto tempo duram as ilusões – um lampejo eterno, a prisão de um insight, o bater de asas inexistentes. Rude esboço de traços tão livres quanto ignorantes, porém incapazes de extrapolar a moldura do papel.