Dona Maria
D. Maria levanta antes do galo mais afoito e deixa o marido dormindo na rede em que com ele dividia. Enquanto faz o café e põe bolachas na mesa que fica na parte de fora da casa, extensão de terra batida e coberta por uma lona, ela vai programando como será o dia. Sua primeira preocupação fragmenta-se em muitas outras. Mas não tem mesmo muito tempo para refletir. Logo os filhos e o marido erguem-se com a aurora e rápido, em tácito acordo, todos vão para a praia. Ela deixa as crianças mais novas com sua sogra e junto com as mais crescidas, vai “despescar” o “curral” enquanto que o marido, seus dois filhos mais velhos, um primo e um vizinho arrumam a faina de mais uma jornada de pesca no “mar de fora”. Dois sobrinhos, que vivem com a família adentram o “mangal” atrás de caranguejos e turus para subsistência. Ainda antes das 7h da manhã, D. Maria e sua “equipe” trazem a “produção” do curral e de imediato, enquanto os filhos se encaminham para a escola existente, os peixes considerados mais nobres são por ela negociados a baixo preço com os “marreteiros” locais, pois não há “geleiro” na área. Nesse mercado informal, D. Maria e suas colegas em situação semelhante, aproveitam para pôr a conversa em dia e combinam de à noite, estarem presentes a mais uma reunião da Colônia de Pesca que acontecerá. O restante dos peixes é levado para evisceração e salga, também feita por ela e pelos familiares aptos e disponíveis antes do almoço, que conta com sua participação na elaboração. No início da tarde, em meio às necessidades dos mais novos e a percepção de que seu reumatismo está aumentando, D. Maria organiza uma pequena “linha de produção” com os próximos, para reparar os apetrechos que estejam em mal estado. Após o que, pode optar em ajudar no “mutirão familiar” da “farinhada” ou mais comumente, no da arrumação da casa e da “bóia” e então, aguardar a chegada da embarcação em que o marido trabalha na boca da noite. Quando o barco aporta na praia, dependendo da maré, a família ajuda no desembarque do pescado e novamente, o peixe de primeira é negociado de pronto. Muitas vezes as mulheres intervêm na barganha da produção talvez por terem freqüentado por mais tempo o colégio (quando existente) do que os homens, arregimentados para de dispersar na pesca no mar desde cedo. Após o possível acondicionamento do pescado e um banho de água de poço, o marido e seus companheiros (boa parte com câncer de pele desenvolvido) podem embicar para uma birosca, onde ficam até a hora em que o pessoal da Colônia se reunirá, enquanto que D. Maria, junto com as outras mulheres da casa, vão cuidar das crianças e finalizar o preparo da janta. Após o que, D. Maria e o marido, um tanto cansados, vão para uma reunião da Colônia. Já meio que acostumado, o esposo percebe que sua mulher e suas amigas vêm, na verdade, tomando a iniciativa em muitas ações estratégicas da Colônia e sobretudo, vêm apresentando e executando soluções plausíveis em terra. Contudo, fica surpreso em ouvi-la, do alto dos seus 50 anos de muito trabalho duro, falar que as mulheres irão montar uma associação de gênero, ligada à sua parcela de labor com os recursos naturais – complementares de insumos na unidade familiar - alegando que não têm sido devidamente amparadas em seus direitos trabalhistas, de saúde, previdenciários e que se consideram, sobretudo, personagens indispensáveis à reprodução do sistema em que vivem - de economia familiar. Como saldo e apesar de atritos esporádicos, o orgulho da comunidade enleva-se, pois há certeza de que se renovam e ampliam-se suas forças. Antes das 21h, a rede do casal já range de novo.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Um dos oito olhos da aranha
Um dos oito olhos da aranha no ângulo do teto viu...
Assim que ele adentrou a porta, totó sobressaltou-se e alegre, abanou vivamente o rabo e como em transe, escancarou um sorriso com meio palmo de língua pra fora. Não demorou muito, cercou a “chefia” e danou a ladrar profusamente, enchendo a sala com seu tudo contar e perguntar. Lisonjeado pelas lambidas na mão, “chefia” deixou-se relaxar e alienado, aproveitou aquele momento de glória para refletir onde estava e do que havia se livrado nesta vida. Todo aquele singelo momento amplificou-se quando em uníssono, totó e pupi - que arfando e fazendo mimos, finalmente tinha conquistado a simpatia do grupo – aconchegou-se no recinto. Que beleza! Como que amestrados os dois animaizinhos faziam tudo numa inacreditável sincronia, que quando não era cadenciada - puxa - se completava. Era demais, tal performance tinha de ser espalhada para os outros proprietários. Não só como trunfo da capacidade de domesticação da “chefia”, mas principalmente como exemplo a ser seguido pelo resto da bicharada do lugar.
Assim que ele adentrou a porta, totó sobressaltou-se e alegre, abanou vivamente o rabo e como em transe, escancarou um sorriso com meio palmo de língua pra fora. Não demorou muito, cercou a “chefia” e danou a ladrar profusamente, enchendo a sala com seu tudo contar e perguntar. Lisonjeado pelas lambidas na mão, “chefia” deixou-se relaxar e alienado, aproveitou aquele momento de glória para refletir onde estava e do que havia se livrado nesta vida. Todo aquele singelo momento amplificou-se quando em uníssono, totó e pupi - que arfando e fazendo mimos, finalmente tinha conquistado a simpatia do grupo – aconchegou-se no recinto. Que beleza! Como que amestrados os dois animaizinhos faziam tudo numa inacreditável sincronia, que quando não era cadenciada - puxa - se completava. Era demais, tal performance tinha de ser espalhada para os outros proprietários. Não só como trunfo da capacidade de domesticação da “chefia”, mas principalmente como exemplo a ser seguido pelo resto da bicharada do lugar.
bom dia
Fim do dia...
Mais um, nesse mosaico de unidades trivialmente inigualáveis, onde sempre falta um pedaço ou aparece outro, insuspeitadamente ou não. Contudo, lá está ele, sustentando a estrutura do futuro e fazendo parte do que se foi e se é. Nesse pictograma, mesmo que não se dê continuidade, a sensação de algo inacabado é recorrente. Entrando na dimensão da mesclagem dos dias de cada um, percebe-se que de certa forma, como num fractal, o padrão se repete, agregando, no entanto, mais dinamicidade de interações. Assim, o quão fazemos parte uns dos “tijolos” que compõem o outro ou sua trajetória? Claro está que “dias” ou “tijolos” são unidades totalmente artificiais e servem apenas para fins didáticos, devendo ter conceito extrapolado para a relatividade das razões sem perder, no entanto a praticidade da percepção dos vetores de influência. Mais sentindo que teorizando, como se fosse possível um juízo de valores, trafego tentando cambiar heranças de componentes e de suas combinações, especialmente com a vida. Somos todos cada um.
Abraços
Mais um, nesse mosaico de unidades trivialmente inigualáveis, onde sempre falta um pedaço ou aparece outro, insuspeitadamente ou não. Contudo, lá está ele, sustentando a estrutura do futuro e fazendo parte do que se foi e se é. Nesse pictograma, mesmo que não se dê continuidade, a sensação de algo inacabado é recorrente. Entrando na dimensão da mesclagem dos dias de cada um, percebe-se que de certa forma, como num fractal, o padrão se repete, agregando, no entanto, mais dinamicidade de interações. Assim, o quão fazemos parte uns dos “tijolos” que compõem o outro ou sua trajetória? Claro está que “dias” ou “tijolos” são unidades totalmente artificiais e servem apenas para fins didáticos, devendo ter conceito extrapolado para a relatividade das razões sem perder, no entanto a praticidade da percepção dos vetores de influência. Mais sentindo que teorizando, como se fosse possível um juízo de valores, trafego tentando cambiar heranças de componentes e de suas combinações, especialmente com a vida. Somos todos cada um.
Abraços
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
somos todos iguais
Somos Todos Iguais
Temos versões diferentes, mas uma mesma história
Temos questões existenciais similares
Viemos, vivemos e vamos juntos
Somos irmãos
Podemos amar-nos
Valorizamos virtudes consagradas
Comemos e bebemos na mesma mesa
Impactamos o mesmo planeta
Padecemos de males universais
Guerras são sempre péssimas
Ninguém tem direitos sobre outrem
Temos a mesma responsabilidade
Temos todos o dom de melhorar
Podemos decidir fazer a diferença
Podemos ajudar os outros
Há lugar para todos
Existem alternativas mais sustentáveis
Precisamos de todos
Temos versões diferentes, mas uma mesma história
Temos questões existenciais similares
Viemos, vivemos e vamos juntos
Somos irmãos
Podemos amar-nos
Valorizamos virtudes consagradas
Comemos e bebemos na mesma mesa
Impactamos o mesmo planeta
Padecemos de males universais
Guerras são sempre péssimas
Ninguém tem direitos sobre outrem
Temos a mesma responsabilidade
Temos todos o dom de melhorar
Podemos decidir fazer a diferença
Podemos ajudar os outros
Há lugar para todos
Existem alternativas mais sustentáveis
Precisamos de todos
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Uma manhã
Naquela manhã, conforme o asfalto e os prédios
Iam dando lugar à mata,
Fortalecia-se a liberdade, a euforia e o altruísmo
na jovem caravana.
Nesse espírito, uma vez dentro da floresta,
Tudo pareceu reveladoramente conhecido.
Cada elemento, paisagem, amigo ou tempo tinha um pouco de nós
E a gente um tanto deles.
Árvores, consciências, águas, cores, sonhos, sons e sorrisos
Misturavam-se, pudemos sentir, emanando amor, vida
E mais vida.
O mundo tinha ficado melhor.
Desde então, repetimos e ampliamos muitas vezes
Essas jornadas astrais e hoje,
talvez mais do que nunca e
cada um à sua maneira,
essa gente vem cultivando a natureza
Dentro, envolta de si e onde mais puder.
Iam dando lugar à mata,
Fortalecia-se a liberdade, a euforia e o altruísmo
na jovem caravana.
Nesse espírito, uma vez dentro da floresta,
Tudo pareceu reveladoramente conhecido.
Cada elemento, paisagem, amigo ou tempo tinha um pouco de nós
E a gente um tanto deles.
Árvores, consciências, águas, cores, sonhos, sons e sorrisos
Misturavam-se, pudemos sentir, emanando amor, vida
E mais vida.
O mundo tinha ficado melhor.
Desde então, repetimos e ampliamos muitas vezes
Essas jornadas astrais e hoje,
talvez mais do que nunca e
cada um à sua maneira,
essa gente vem cultivando a natureza
Dentro, envolta de si e onde mais puder.
Homem janela
Homem janela
Emoldurado olhar,
Invadido de paisagem,
Evadido em desejos.
Seus cotovelos calejados,
Sustentavam as inúmeras
Viagens e projeções,
Daquela janela universo afora.
A lógica transcendia e
Seus olhos, boca, coração
E tudo o mais, pairavam
A funcionar como janelas.
Janelas, bem entendido,
paradoxalmente,
como âncoras de sonhos,
como livre prisão.
Não importava onde
Pairasse,
O retângulo ordenava
Quaisquer percepções.
Um dia, pulou da janela.
Aqueles segundos
Valeram-lhe a vida.
Emoldurado olhar,
Invadido de paisagem,
Evadido em desejos.
Seus cotovelos calejados,
Sustentavam as inúmeras
Viagens e projeções,
Daquela janela universo afora.
A lógica transcendia e
Seus olhos, boca, coração
E tudo o mais, pairavam
A funcionar como janelas.
Janelas, bem entendido,
paradoxalmente,
como âncoras de sonhos,
como livre prisão.
Não importava onde
Pairasse,
O retângulo ordenava
Quaisquer percepções.
Um dia, pulou da janela.
Aqueles segundos
Valeram-lhe a vida.
Meio de vida
Meio de vida
Minha gente, o que mais se parece com o fim não é o começo?
Emendando essa ladainha, até doutor sai dizendo: acho que foi amanhã...
Ontem será um novo dia...
Sei lá.
Assim, em grata prece, tudo o que peço
É só mais uma manhã.
Pelo menos meia, que seja, por carestia.
Por louvor, meu Bendito, antes da derradeira, pra já!
Quem sabe, orando assim,
não existo novamente?
Não que eu me arrependa
Do que não fiz nesta existência,
Mas, valha-me meu Padim,
É tudo tão de repente,
Que de prenda,
Só levo a querência.
Se daqui sigo pra melhor,
Repito que não sei
nem de onde vim,
menos, então, pra onde vou.
Isto dito, por gentileza, concedam-me atenção, cara senhora, distinto senhor,
Pois, muito minhas palavras pesei
Pra aconselhar, com licença, que o que vale, enfim,
É o que no meio dessa vida, feliz, se partilhou.
O meio da vida, a gente sabe, é diferente.
Passa, matreiro, por entre os depois e os antes,
É o que faz sentido.
Não se esquece jamais.
Sempre potente,
Une, justo pelos meios, amantes,
Deixando o baile perfumado,
De trás pra frente e de frente pra trás.
Então, vamos e venhamos, cumadre e cumpadre,
Tem mais meio do que início ou final
Do que se valer ou perder.
Sabe disso qualquer cabra.
Mesmo um padre,
Regrado pelo astral,
Com pendão, vai lhe dizer:
“A vida é aqui e agora!”
Minha gente, o que mais se parece com o fim não é o começo?
Emendando essa ladainha, até doutor sai dizendo: acho que foi amanhã...
Ontem será um novo dia...
Sei lá.
Assim, em grata prece, tudo o que peço
É só mais uma manhã.
Pelo menos meia, que seja, por carestia.
Por louvor, meu Bendito, antes da derradeira, pra já!
Quem sabe, orando assim,
não existo novamente?
Não que eu me arrependa
Do que não fiz nesta existência,
Mas, valha-me meu Padim,
É tudo tão de repente,
Que de prenda,
Só levo a querência.
Se daqui sigo pra melhor,
Repito que não sei
nem de onde vim,
menos, então, pra onde vou.
Isto dito, por gentileza, concedam-me atenção, cara senhora, distinto senhor,
Pois, muito minhas palavras pesei
Pra aconselhar, com licença, que o que vale, enfim,
É o que no meio dessa vida, feliz, se partilhou.
O meio da vida, a gente sabe, é diferente.
Passa, matreiro, por entre os depois e os antes,
É o que faz sentido.
Não se esquece jamais.
Sempre potente,
Une, justo pelos meios, amantes,
Deixando o baile perfumado,
De trás pra frente e de frente pra trás.
Então, vamos e venhamos, cumadre e cumpadre,
Tem mais meio do que início ou final
Do que se valer ou perder.
Sabe disso qualquer cabra.
Mesmo um padre,
Regrado pelo astral,
Com pendão, vai lhe dizer:
“A vida é aqui e agora!”
madruga interminável
Aquela madrugada de terça-feira na Asa Norte do Plano-Piloto da capital do país, seria apenas mais uma daquelas em que a minha indigência ficava mais patente, relegando-me à penosa consciência de minha nulidade, apesar do incomum frio marcar mais ainda o quadro. Nesses momentos, mendigando vestígios do que fui antes de cair nas ruas, distraía-me lendo com afinco publicações ofertadas gratuitamente nos pontos de ônibus e assim, sempre que possível embebedando-me, acabava sentindo que restaurava um pouco de minha identidade.
A singularidade de minha situação, de um vagabundo letrado de meia-idade, no entanto, mesmo consistindo em excelente argumento para roteiros ou teses, não tem relevância, pois é sobre aquela noite surreal que quero contar. Às três da manhã, com o ego ébrio e mais refeito, tomei coragem e arrastei meu surrado carrinho de feira abarrotado com meus preciosos pertences pelas quadras em direção a um abrigo seguro. A cidade literalmente dormia e afora ícones da fauna noturna, não havia viva alma. Nem os gatos estavam se arriscando e assim, não foi difícil reparar que bem menos do que de costume, mesmo para um início de semana, pouquíssimos apartamentos mantinham as luzes acesas.
Na calçada em frente a um desses prédios das quadras habitacionais, parei para acender um toco de cigarro que havia guardado. Além da cena do porteiro zelando pelo seu próprio sono, detive minha atenção em um apartamento do terceiro andar que era o único com a luz acesa em toda a redondeza. Dando contexto à nicotina, pensei: que estaria fazendo o pessoal lá a esta hora nesta estrela solitéria que não está dormindo? Se fosse eu, continuei, estaria bem quentinho na cama, curtindo meu quinto sono. Aproveitando a parada, desviei o olhar para desenterrar o resto da pinga, embutida no carrinho. Quando elevei minha cabeça para um derradeiro gole, um tanto surpreso vi que agora era um apartamento do segundo andar que tinha a luz acesa enquanto o do terceiro estava escuro como a noite.
Curioso, mantive o olhar no recinto iluminado e então, aconteceu. Quase perdendo toda e qualquer noção de equilíbrio físico e mental e, no entanto, mais maravilhado do que assustado, acompanhei o cômodo aclarado bailar por todo o concreto do prédio, tal vaga-lume, transitando, já ensaiava eu, por entre mundos extraordinários ou reunindo-os. Seguido por uma coreografia de contorções de meu rosto, luzidio, o apartamento subia, descia ou arremetia-se pelas laterais agora com velocidade impressionante.
Petrificado pelo meu testemunho, meu corpo simplesmente não obedecia aos meus reflexos de fuga quando pulverizando qualquer nesga de lógica, o apartamento luminoso descolou-se da construção, esvoaçando pelo céu e ruas em evoluções meteóricas.
Proporcionando nova e estupidificante dimensão, aquela visagem mergulhou em minha direção e literalmente, através de mim, varou-me uma sacada com plantas e então uma sala, iluminada por uma lâmpada incandescente amarela, onde, como em um painel de controle, sentado na cabeceira de uma mesa de seis lugares, um homem também de meia idade, trajando apenas uma bermuda, escrevia calmamente à lápis nas páginas de um simples caderno.
Não tive como recusar seu convite gestual para que sentasse ao seu lado na mesa e então, sem menor surpresa, fui sendo tomado por um sentimento de paz inexplicável e assim, foi se estabelecendo uma uníssona dialética entre nós enquanto a sala nitidamente acelerava seu vôo, crescentemente de forma menos material e mais sensorial. À altura e no decorrer do fantástico evento, não me surpreendeu que nossa viagem tivesse como destino um verdadeiro Graal universal: um exercício sobre o entendimento do mecanismo da “perfeição” em nossos atos, posturas e ideologias, uma vez que afinal, errar é humano.
Assim, não visitamos lugares ou tempos, vagamos por cenários conceituais, experienciando pólos completamente antagônicos, complementares e suas matizes de intergradação de contextos. Procurando meios de processar informações, as razões, paixões e dúvidas sucediam-se efêmeras ou perenes em panorâmicos caleidoscópios que mesclavam-se ou fragmentavam-se, empanturrando-nos de infindável universo de expressões e compreensões A definição do que é ou não “verdade”, saltou-nos como uma via para o estabelecimento da “perfeição”. Porém, percebemos neste estágio, que a “verdade”, dada a profusão de variáveis, parecia tão inerente e aceitável quanto a ignorância ou mesmo quanto à imaginação. Quando tivemos a idéia de nos multiplicamos e diversificamos imensamente, a fim verificar diferentes escalas e desdobramentos, algo pareceu ter mudado. A simulação de diferentes abordagens culturais, embasadas em paradigmas diversos, trouxe respostas originais e complementares, mostrando que a “verdade” é um conceito que pode ser produzido e massificado.
antes de procurar um abrigo seguro
potencializada pelo incomum frio seco do inverno do Planalto Central.
Apesar da sensação potencializar-se pelo intenso frio Apesar do inóspito frio parecia-se com muitas outras
Ostentando minha costumeira eloqüente invisibilidade, meu calejado corpo seguia para o abrigo
A singularidade de minha situação, de um vagabundo letrado de meia-idade, no entanto, mesmo consistindo em excelente argumento para roteiros ou teses, não tem relevância, pois é sobre aquela noite surreal que quero contar. Às três da manhã, com o ego ébrio e mais refeito, tomei coragem e arrastei meu surrado carrinho de feira abarrotado com meus preciosos pertences pelas quadras em direção a um abrigo seguro. A cidade literalmente dormia e afora ícones da fauna noturna, não havia viva alma. Nem os gatos estavam se arriscando e assim, não foi difícil reparar que bem menos do que de costume, mesmo para um início de semana, pouquíssimos apartamentos mantinham as luzes acesas.
Na calçada em frente a um desses prédios das quadras habitacionais, parei para acender um toco de cigarro que havia guardado. Além da cena do porteiro zelando pelo seu próprio sono, detive minha atenção em um apartamento do terceiro andar que era o único com a luz acesa em toda a redondeza. Dando contexto à nicotina, pensei: que estaria fazendo o pessoal lá a esta hora nesta estrela solitéria que não está dormindo? Se fosse eu, continuei, estaria bem quentinho na cama, curtindo meu quinto sono. Aproveitando a parada, desviei o olhar para desenterrar o resto da pinga, embutida no carrinho. Quando elevei minha cabeça para um derradeiro gole, um tanto surpreso vi que agora era um apartamento do segundo andar que tinha a luz acesa enquanto o do terceiro estava escuro como a noite.
Curioso, mantive o olhar no recinto iluminado e então, aconteceu. Quase perdendo toda e qualquer noção de equilíbrio físico e mental e, no entanto, mais maravilhado do que assustado, acompanhei o cômodo aclarado bailar por todo o concreto do prédio, tal vaga-lume, transitando, já ensaiava eu, por entre mundos extraordinários ou reunindo-os. Seguido por uma coreografia de contorções de meu rosto, luzidio, o apartamento subia, descia ou arremetia-se pelas laterais agora com velocidade impressionante.
Petrificado pelo meu testemunho, meu corpo simplesmente não obedecia aos meus reflexos de fuga quando pulverizando qualquer nesga de lógica, o apartamento luminoso descolou-se da construção, esvoaçando pelo céu e ruas em evoluções meteóricas.
Proporcionando nova e estupidificante dimensão, aquela visagem mergulhou em minha direção e literalmente, através de mim, varou-me uma sacada com plantas e então uma sala, iluminada por uma lâmpada incandescente amarela, onde, como em um painel de controle, sentado na cabeceira de uma mesa de seis lugares, um homem também de meia idade, trajando apenas uma bermuda, escrevia calmamente à lápis nas páginas de um simples caderno.
Não tive como recusar seu convite gestual para que sentasse ao seu lado na mesa e então, sem menor surpresa, fui sendo tomado por um sentimento de paz inexplicável e assim, foi se estabelecendo uma uníssona dialética entre nós enquanto a sala nitidamente acelerava seu vôo, crescentemente de forma menos material e mais sensorial. À altura e no decorrer do fantástico evento, não me surpreendeu que nossa viagem tivesse como destino um verdadeiro Graal universal: um exercício sobre o entendimento do mecanismo da “perfeição” em nossos atos, posturas e ideologias, uma vez que afinal, errar é humano.
Assim, não visitamos lugares ou tempos, vagamos por cenários conceituais, experienciando pólos completamente antagônicos, complementares e suas matizes de intergradação de contextos. Procurando meios de processar informações, as razões, paixões e dúvidas sucediam-se efêmeras ou perenes em panorâmicos caleidoscópios que mesclavam-se ou fragmentavam-se, empanturrando-nos de infindável universo de expressões e compreensões A definição do que é ou não “verdade”, saltou-nos como uma via para o estabelecimento da “perfeição”. Porém, percebemos neste estágio, que a “verdade”, dada a profusão de variáveis, parecia tão inerente e aceitável quanto a ignorância ou mesmo quanto à imaginação. Quando tivemos a idéia de nos multiplicamos e diversificamos imensamente, a fim verificar diferentes escalas e desdobramentos, algo pareceu ter mudado. A simulação de diferentes abordagens culturais, embasadas em paradigmas diversos, trouxe respostas originais e complementares, mostrando que a “verdade” é um conceito que pode ser produzido e massificado.
antes de procurar um abrigo seguro
potencializada pelo incomum frio seco do inverno do Planalto Central.
Apesar da sensação potencializar-se pelo intenso frio Apesar do inóspito frio parecia-se com muitas outras
Ostentando minha costumeira eloqüente invisibilidade, meu calejado corpo seguia para o abrigo
taxiando
Taxiando
Sentado no banco de trás do táxi, Brasília parecia-se com o mundo naquela bela tarde. A animada e despretensiosa conversa entre mim e o motorista cearense sobre a canseira do trabalho, a proximidade das férias, a família, as origens e o rumo da corrida, parecia harmonizar-se à paisagem, dando-lhe contornos mais interativos.
De repente, ignorando o sinal vermelho que nos detia, os olhos perdidos e o corpo retorcido de um indigente de meia idade epilético em plena crise, esparramado na calçada ao lado, avançaram para dentro do carro e de nossas convicções, remetendo-nos abruptamente, em muda eloqüência, à perturbadora certeza do fim. Em estertor, o homem ainda tentou se levantar, sem sucesso, enquanto chegavam paramédicos, arautos de uma esperança qualquer.
A luz verde do sinal e o movimento dos carros à frente despertaram-nos e seguimos, deixando a cena inacabada inocular-se em nós. Lembro que cruzando o semáforo, à cerca de 50 metros adiante do local, percebi, tomado certamente pelo efusivo estado de alerta, que as pessoas na calçada conversavam ou caminhavam sem reagir ou muito menos saber do acontecido.
Refleti, totalmente impressionado pela sincronia entre as expressões vida e morte, impulsivamente, que um momento – em sua passagem – parecia ser bem mais rico que um local no intervalo delimitado ou que uma unidade de tempo abriga maior variação e volume de eventos durante sua passagem do que uma unidade de espaço naquele período.
Pareceu-me, claro, recuperado, trivial o raciocínio, afinal o tempo está em todos os lugares simultaneamente e não o contrário. Afinal, naquele momento certamente estrelas explodiam, bisões pastavam e certamente muita gente nascia, crescia e morria. Por
outro lado, aquele lugar, em diferentes períodos, permaneceu acumulando performances durante a rolagem do tempo, abra ngendo enorme diversidade de eventos à sua maneira.
Apesar de me questionar se é possível existir tempo sem localidades ou sem mim ou vice-versa qualquer coisa, além de outras idiotices suscitadas ou pela experiência, numa perspectiva pessoal e certamente mais interessante, aquela vivência e seus instante e local permanecerão comigo – e com os que a vivenciaram - de alguma forma, diversificando imprevisivelmente qualquer definição ou desdobramento da relação entre o tempo, o espaço e vivências. Dificilmente conseguirei extrair algum conceito válido disso tudo, mas a riqueza do universo e o valor das experiências ficaram bem mais claras, fomentando, especialmente, a gratidão pela morte continuar me errando por mais tempo e por onde tenho andado. Assim, de maneira redundante, certamente é próspera nossa qualificação do uso do tempo e do espaço, mormente de forma coletiva. Essa quase idiota obviedade, resultante da mirabolante interpretação – naturalmente em muito emotiva – de uma
vivência onde a vida e a morte se acotovelaram, só reforça o seu valor.
Talvez arejados pelo vento do carro em movimento e perto já de meu destino, a prosa instintivamente evitou temas letais e voltou às amenidades do início da corrida. De minha parte, agora refletindo, não poderia esperar que chegasse a sendas tão diversas naquela viagem de taxi numa tarde no Plano Piloto.
Sentado no banco de trás do táxi, Brasília parecia-se com o mundo naquela bela tarde. A animada e despretensiosa conversa entre mim e o motorista cearense sobre a canseira do trabalho, a proximidade das férias, a família, as origens e o rumo da corrida, parecia harmonizar-se à paisagem, dando-lhe contornos mais interativos.
De repente, ignorando o sinal vermelho que nos detia, os olhos perdidos e o corpo retorcido de um indigente de meia idade epilético em plena crise, esparramado na calçada ao lado, avançaram para dentro do carro e de nossas convicções, remetendo-nos abruptamente, em muda eloqüência, à perturbadora certeza do fim. Em estertor, o homem ainda tentou se levantar, sem sucesso, enquanto chegavam paramédicos, arautos de uma esperança qualquer.
A luz verde do sinal e o movimento dos carros à frente despertaram-nos e seguimos, deixando a cena inacabada inocular-se em nós. Lembro que cruzando o semáforo, à cerca de 50 metros adiante do local, percebi, tomado certamente pelo efusivo estado de alerta, que as pessoas na calçada conversavam ou caminhavam sem reagir ou muito menos saber do acontecido.
Refleti, totalmente impressionado pela sincronia entre as expressões vida e morte, impulsivamente, que um momento – em sua passagem – parecia ser bem mais rico que um local no intervalo delimitado ou que uma unidade de tempo abriga maior variação e volume de eventos durante sua passagem do que uma unidade de espaço naquele período.
Pareceu-me, claro, recuperado, trivial o raciocínio, afinal o tempo está em todos os lugares simultaneamente e não o contrário. Afinal, naquele momento certamente estrelas explodiam, bisões pastavam e certamente muita gente nascia, crescia e morria. Por
outro lado, aquele lugar, em diferentes períodos, permaneceu acumulando performances durante a rolagem do tempo, abra ngendo enorme diversidade de eventos à sua maneira.
Apesar de me questionar se é possível existir tempo sem localidades ou sem mim ou vice-versa qualquer coisa, além de outras idiotices suscitadas ou pela experiência, numa perspectiva pessoal e certamente mais interessante, aquela vivência e seus instante e local permanecerão comigo – e com os que a vivenciaram - de alguma forma, diversificando imprevisivelmente qualquer definição ou desdobramento da relação entre o tempo, o espaço e vivências. Dificilmente conseguirei extrair algum conceito válido disso tudo, mas a riqueza do universo e o valor das experiências ficaram bem mais claras, fomentando, especialmente, a gratidão pela morte continuar me errando por mais tempo e por onde tenho andado. Assim, de maneira redundante, certamente é próspera nossa qualificação do uso do tempo e do espaço, mormente de forma coletiva. Essa quase idiota obviedade, resultante da mirabolante interpretação – naturalmente em muito emotiva – de uma
vivência onde a vida e a morte se acotovelaram, só reforça o seu valor.
Talvez arejados pelo vento do carro em movimento e perto já de meu destino, a prosa instintivamente evitou temas letais e voltou às amenidades do início da corrida. De minha parte, agora refletindo, não poderia esperar que chegasse a sendas tão diversas naquela viagem de taxi numa tarde no Plano Piloto.
início fim e meio
Corpos candentes
Chacoalho meu pequeno cérebro tentando descobrir alguma origem ou mesmo fim
Só posso conceber uma providência qualquer também destituída de uma explicação plausível de Genesis. O fato da completa ignorância, apesar de pouco influir no cotidiano, realmente perturba. Energia, matéria, atração, condensação, repulsa, explosão, big-bang...como começou? Qual foi a centelha inicial? Parece tudo um sonho, como a nossa própria existência. Mas mesmo um sonho, por mais etéreo, tem uma origem corpórea e energética. Bom, parece que o que nos resta ou se descortina, é trabalhar com o que temos para, de alguma maneira, perpetuarmos e difundirmos aquilo que entendemos como o produto maior ou bem supremo de toda esta conjuntura e trajetória: a vida.
O conceito de vida pressupõe, portanto, a coexistência de muitas formas expressão vital, uma vez que todas exprimem, digamos, essa mesma característica, evidenciada especialmente pelos processos de reprodução, crescimento e maturação. No entanto, somos mais sensíveis, em geral, às formas de vida assemelhadas. Assim, somos plenamente capazes de extinguir formas de vida diferentes em prol da manutenção de nossos congênitos.
A discussão prossegue com o conhecimento genético e outras fonteiras...mas agora estou cansado...
Chacoalho meu pequeno cérebro tentando descobrir alguma origem ou mesmo fim
Só posso conceber uma providência qualquer também destituída de uma explicação plausível de Genesis. O fato da completa ignorância, apesar de pouco influir no cotidiano, realmente perturba. Energia, matéria, atração, condensação, repulsa, explosão, big-bang...como começou? Qual foi a centelha inicial? Parece tudo um sonho, como a nossa própria existência. Mas mesmo um sonho, por mais etéreo, tem uma origem corpórea e energética. Bom, parece que o que nos resta ou se descortina, é trabalhar com o que temos para, de alguma maneira, perpetuarmos e difundirmos aquilo que entendemos como o produto maior ou bem supremo de toda esta conjuntura e trajetória: a vida.
O conceito de vida pressupõe, portanto, a coexistência de muitas formas expressão vital, uma vez que todas exprimem, digamos, essa mesma característica, evidenciada especialmente pelos processos de reprodução, crescimento e maturação. No entanto, somos mais sensíveis, em geral, às formas de vida assemelhadas. Assim, somos plenamente capazes de extinguir formas de vida diferentes em prol da manutenção de nossos congênitos.
A discussão prossegue com o conhecimento genético e outras fonteiras...mas agora estou cansado...
sambrasil
SamBrasil
Sob o contagiante samba-enredo da BM&FBovespa e coalhado pela nata do baticum global e para sua redenção, o carnaval corria solto e libertário na apoteótica Pindorama. Nos vais e vens amazônicos, paraguaios e platinos, flertando agendas multilaterais, inebriada e provinciana, a nação celebrava a – sabidamente sempre efêmera - fantasia faustiana na catarse de um gol de placa no pré-sal ou na sacralidade do bento suor do rabo da mulher-melancia. No ambiente privê dos camarotes palacianos, foliões da Vale e de outras multinacionais, além de passistas e parasitas do establishment, diluíam-se em negociáveis rebolados ao sabor de uma miríade de repertórios ego-políticos locais. Enquanto isso, na passarela, só alegria: democratizando mesuras, sorrisos e salamaleques, especialmente a potentados, os notáveis da comissão de frente inauguravam o show da emergente pátria. Na sequencia, ofertando incalculável espetáculo, o desfile da ala das commodities incendiava o rincão e deslocava multidões, esbanjando luxúria enquanto a bateria do PAC, travestida em inacreditáveis cargas tributárias e sob a égide do Banco-mor, ditava o ritmo sem pedir licença ou aprovação, explodindo em dourado, gemas e confetes e serpentinas de gado, soja, milho, sorgo e cana - esta última, então, era a glória. Capitalizando sobremaneira os créditos da ala precedente, os poucos, porém históricos integrantes do bloco dos latifundiários junto à União dos empreendedores privados mostraram mais uma vez ao que veio, mesmo sem inovar: autodenominados como esteios da nação, distribuíram balas, algum dinheiro e principalmente, cuidaram do patrimônio alheio como se fosse seu. Energia não faltava à comemoração, pois, mesmo se tivesse apagão, os radioativos, metais e eletrointensivos varavam continentes no couro da geral e de seus descendentes, fazendo zoar alto o choro das cuícas, marcado pelo surdo vácuo da exclusão e extinção “megasóciobiodiversa”. De repente, uma série de paradinhas, muito bem colocadas e enxertando o visceral balanço do funk na levada da avenida, promoveu átimos de silêncio e atenção que remetiam a psique do povo, intuitivamente, antes às cachorras e fauna acompanhante. Especialistas correlacionaram, aí, então e definitivamente, a excitação do evento ao aumento do aquecimento global – porém, até aí morreu Neves e o samba não pode parar, como dizia o poeta. Portanto, na patriótica farra, ninguém se deu ao mínimo estorvo de intuir em meio ao gozo comunal, que, afinal, as mazelas tornariam-se as etéreas purpurinas que brilhavam mesmo de relance e “psicodelizavam” a festa. Colorindo indelevelmente o apogeu da saga, carros alegóricos-partidários, encenando mitos de abundante e siliconizada fertilidade, ofertaram, dadivosos, todos, escandalosas performances de ícones nacionais, mascarados e nus em pelo. A platéia, claro, assaz identificada e eufórica, cheia de orgulho da raça, cagando solenemente para inevitáveis ressacas, faturas ou falências, entoou em transe seminal os mantras carnavalescos, certa de sua fé na providência e de olho mirado, entretanto, complacente e credor, às evoluções do Mestre-Sala e da Porta-Bandeiras – diretamente eleitos pelo voto obrigatório. A certa altura, marcada por mirabolantes efeitos de fumaça da galera das cracolândias, a coreografia permitiu, para assombro geral, o livre trânsito dos brincantes do tráfico, mesmo daqueles de lícita fluência no tabuleiro mundial – apareceu todo o tipo de gente, impressionante. Então, gerando incondicional insigth, a bola finalmente tufou a rede no Maraca de cada um quando, fardada ou não, de terno, tayer ou repleta de crianças que de futuro só teriam um tênis Nike e formigas na boca, as milícias e seus mandantes estatais chegaram de bicho, como num arrastão, disparando incessantes salvas de seus tamborins automáticos, atualizando toda a cadência da escola e secretando, enfim, a siamesa essência da massa – o que provocou um uníssono de suspiros de alívio nos que se arriscaram ao menos uma vez na vida a se perguntar “de onde vim”, “quem sou” e “pra onde vou”. A esperada ala das putas botou o santo no quadro quando beatizando de vez a preferência nacional e mimetizando-se a quaisquer dos devotos, promoveu novo espasmo de suspiros de auto-reconhecimento – tocante no conjunto da obra. Nesse momento, incrédulos e propensos até a raiz, os gringos se renderam por completo, fundindo-se, celerados, aos humanos, demasiadamente humanos e celebrando - em júbilo e tentando extipar seus recalcitrantes ônus (a)morais - a permissividade de paradigmas e fronteiras dos trópicos. Sorrindo até suas contas-laranja e abençoando aquela data e seus paraísos fiscais, os jurados, cúmplices bem-aventurados, em liturgia semi-monástica, elevaram, naturalmente, suas notas acima das possibilidades de crédito, levando a população a, tediosamente, conjurar que o espólio alheio era o meio ideal de se ter sucesso de vida, abstração logo substituída por uma suruba – com muita camisinha jogada sensatamente e de última hora pela produção - até então tácita e prontamente generalizada. Se alguém ficou de fora, corria na mídia cruzada, é porque não foi convidado é ruim da cabeça ou doente do pé. No entanto, economias centrais, on line, reféns da autenticidade da expressão e de sua aderência, inseriram, à revelia de suas limitações metafísicas e no momento propício, o registro do bacarnaval, como, por exemplo, a obra de Sheakespeare, como uns dos cinco maiores legados da espécie em sondas extra-galáticas, argumentando, salvo melhor juízo, que se tratava de uma estratégia reprodutiva esplendidamente aquilatada. O Universo, então, deve ter virado um eterno Big-Bang – salve o cosmosamba.
Sob o contagiante samba-enredo da BM&FBovespa e coalhado pela nata do baticum global e para sua redenção, o carnaval corria solto e libertário na apoteótica Pindorama. Nos vais e vens amazônicos, paraguaios e platinos, flertando agendas multilaterais, inebriada e provinciana, a nação celebrava a – sabidamente sempre efêmera - fantasia faustiana na catarse de um gol de placa no pré-sal ou na sacralidade do bento suor do rabo da mulher-melancia. No ambiente privê dos camarotes palacianos, foliões da Vale e de outras multinacionais, além de passistas e parasitas do establishment, diluíam-se em negociáveis rebolados ao sabor de uma miríade de repertórios ego-políticos locais. Enquanto isso, na passarela, só alegria: democratizando mesuras, sorrisos e salamaleques, especialmente a potentados, os notáveis da comissão de frente inauguravam o show da emergente pátria. Na sequencia, ofertando incalculável espetáculo, o desfile da ala das commodities incendiava o rincão e deslocava multidões, esbanjando luxúria enquanto a bateria do PAC, travestida em inacreditáveis cargas tributárias e sob a égide do Banco-mor, ditava o ritmo sem pedir licença ou aprovação, explodindo em dourado, gemas e confetes e serpentinas de gado, soja, milho, sorgo e cana - esta última, então, era a glória. Capitalizando sobremaneira os créditos da ala precedente, os poucos, porém históricos integrantes do bloco dos latifundiários junto à União dos empreendedores privados mostraram mais uma vez ao que veio, mesmo sem inovar: autodenominados como esteios da nação, distribuíram balas, algum dinheiro e principalmente, cuidaram do patrimônio alheio como se fosse seu. Energia não faltava à comemoração, pois, mesmo se tivesse apagão, os radioativos, metais e eletrointensivos varavam continentes no couro da geral e de seus descendentes, fazendo zoar alto o choro das cuícas, marcado pelo surdo vácuo da exclusão e extinção “megasóciobiodiversa”. De repente, uma série de paradinhas, muito bem colocadas e enxertando o visceral balanço do funk na levada da avenida, promoveu átimos de silêncio e atenção que remetiam a psique do povo, intuitivamente, antes às cachorras e fauna acompanhante. Especialistas correlacionaram, aí, então e definitivamente, a excitação do evento ao aumento do aquecimento global – porém, até aí morreu Neves e o samba não pode parar, como dizia o poeta. Portanto, na patriótica farra, ninguém se deu ao mínimo estorvo de intuir em meio ao gozo comunal, que, afinal, as mazelas tornariam-se as etéreas purpurinas que brilhavam mesmo de relance e “psicodelizavam” a festa. Colorindo indelevelmente o apogeu da saga, carros alegóricos-partidários, encenando mitos de abundante e siliconizada fertilidade, ofertaram, dadivosos, todos, escandalosas performances de ícones nacionais, mascarados e nus em pelo. A platéia, claro, assaz identificada e eufórica, cheia de orgulho da raça, cagando solenemente para inevitáveis ressacas, faturas ou falências, entoou em transe seminal os mantras carnavalescos, certa de sua fé na providência e de olho mirado, entretanto, complacente e credor, às evoluções do Mestre-Sala e da Porta-Bandeiras – diretamente eleitos pelo voto obrigatório. A certa altura, marcada por mirabolantes efeitos de fumaça da galera das cracolândias, a coreografia permitiu, para assombro geral, o livre trânsito dos brincantes do tráfico, mesmo daqueles de lícita fluência no tabuleiro mundial – apareceu todo o tipo de gente, impressionante. Então, gerando incondicional insigth, a bola finalmente tufou a rede no Maraca de cada um quando, fardada ou não, de terno, tayer ou repleta de crianças que de futuro só teriam um tênis Nike e formigas na boca, as milícias e seus mandantes estatais chegaram de bicho, como num arrastão, disparando incessantes salvas de seus tamborins automáticos, atualizando toda a cadência da escola e secretando, enfim, a siamesa essência da massa – o que provocou um uníssono de suspiros de alívio nos que se arriscaram ao menos uma vez na vida a se perguntar “de onde vim”, “quem sou” e “pra onde vou”. A esperada ala das putas botou o santo no quadro quando beatizando de vez a preferência nacional e mimetizando-se a quaisquer dos devotos, promoveu novo espasmo de suspiros de auto-reconhecimento – tocante no conjunto da obra. Nesse momento, incrédulos e propensos até a raiz, os gringos se renderam por completo, fundindo-se, celerados, aos humanos, demasiadamente humanos e celebrando - em júbilo e tentando extipar seus recalcitrantes ônus (a)morais - a permissividade de paradigmas e fronteiras dos trópicos. Sorrindo até suas contas-laranja e abençoando aquela data e seus paraísos fiscais, os jurados, cúmplices bem-aventurados, em liturgia semi-monástica, elevaram, naturalmente, suas notas acima das possibilidades de crédito, levando a população a, tediosamente, conjurar que o espólio alheio era o meio ideal de se ter sucesso de vida, abstração logo substituída por uma suruba – com muita camisinha jogada sensatamente e de última hora pela produção - até então tácita e prontamente generalizada. Se alguém ficou de fora, corria na mídia cruzada, é porque não foi convidado é ruim da cabeça ou doente do pé. No entanto, economias centrais, on line, reféns da autenticidade da expressão e de sua aderência, inseriram, à revelia de suas limitações metafísicas e no momento propício, o registro do bacarnaval, como, por exemplo, a obra de Sheakespeare, como uns dos cinco maiores legados da espécie em sondas extra-galáticas, argumentando, salvo melhor juízo, que se tratava de uma estratégia reprodutiva esplendidamente aquilatada. O Universo, então, deve ter virado um eterno Big-Bang – salve o cosmosamba.
mais África
A um tempo, como numa benção, mãos esqueléticas, incrédulas, enchiam de comida bocas ávidas, ressuscitando mesmo desenganados. A sede, de maneira inconcebível, escorria-lhes, enfim, pelos cantos, transbordando saciedades. De poços abismais, seus olhos passaram a irradiar intensa luz. Suas inúmeras chagas, então, extinguiram-se e de forma ainda mais surpreendente, ódios, penúrias e cobiças converteram-se em identidade e amor coletivo. Histórias e futuros foram melhor compartilhados e fundou-se um povo em essência, enfim, mais humano, igualitário e ciente. A decorrente democratização de ciências, políticas e artes fortaleceram ideais de uma concepção e possibilidade de mundo, então, particularmente, mais fraterno. Irmanada, a natureza ali vicejou, paraisando o ambiente. Logo, surpresos e abalando-se pelo inusitado e revolucionário ensaio, déspotas de potentados vizinhos promoveram – e promovem - forte guerra ao abençoado enclave, onde quer que ele esboce expressão. Afinal, como de praxe, antes da insuspeitada e localizada benção, o poder poderia até emanar do povo, mas, sem qualquer outra possibilidade, deveria – e é - ser exercido exclusivamente por capazes assassinos e seus mandatários. Assim, concentrando os esforços bélicos, econômicos e políticos de seus adversários, a fraterna nação foi varrida do mapa, mas, ainda abençoada, sua filosofia igualitária vem fertilizando, cada vez mais, a jornada humana. Entre as inconseqüentes e mimadas crianças e seus brinquedos nucleares, seus quartos desarrumados e seus desperdícios letais e suicidas, organizam-se, necessariamente e de forma engajada, ainda menos do que necessárias, pessoas, esforços e iniciativas espiritualizadas e evoluídas. No que vamos nos transformar – e ao universo e suas formas de vida - é essencialmente uma questão de tempo e de capacidade de transformação. Entre a capacidade mais bestial de se promover um holocausto ou a sustentabilidade global, vivemos a nóia ou o sonho de um mundo melhor. Cabe a nós decidir e fazer.
África
Africanês - apocalíptica esperança
Tenho 4 anos.
Terei 4 anos.
Apenas.
Não mais e por sorte não menos.
Já fui longe.
Outros sonhados, previstos, uterinos,
doentes, abortados, imaginários,
nem em contas amontoam-se.
As imagens dos meus olhos secos
não digitalizam mais comoções,
antes e sobretudo,
perpetram-se no colóide da baba
sedenta ou adornam quixotes e ilíadas.
Serei, certo, menos muitos.
Afinal a terra a qual pertenço não nos pertence.
Sentimentos locupletantes
Tenho 4 anos.
Terei 4 anos.
Apenas.
Não mais e por sorte não menos.
Já fui longe.
Outros sonhados, previstos, uterinos,
doentes, abortados, imaginários,
nem em contas amontoam-se.
As imagens dos meus olhos secos
não digitalizam mais comoções,
antes e sobretudo,
perpetram-se no colóide da baba
sedenta ou adornam quixotes e ilíadas.
Serei, certo, menos muitos.
Afinal a terra a qual pertenço não nos pertence.
Sentimentos locupletantes
Assinar:
Postagens (Atom)