sábado, 21 de julho de 2012

Aracê

Volta de lugar nenhum Depois reviraria suas rasas economias morais ou pediria aos céus dádivas à prestação, conjurando-se. Naquele exato momento, aquela confusão é que lhe fazia sentido, proporcionando referencial sensação de distanciamento de seus mais caros compromissos, desejos e heranças. A idílica cela de irresponsabilidade, fugaz, no entanto, comprimia-se escancarada aos imperativos grilhões de sua consciência, refém de si mesma. Mas, não valia, atinou, promover ou sofrer as conseqüências de uma acareação entre o então vivenciado poder de livre criação, dom e legado maior da expressão de vida, e o da opressão da eminente rotina covardemente inerte. Contudo, autônomo, o embate prevaleceu, imiscuindo-se com razão na profusão das dúvidas inerentes daquela noite de terça-feira. Exatamente isso, estava levando a vida que não queria com todo o sucesso necessário à perpetuação e ao desenvolvimento daquele paradoxo. Tinha de encontrar um meio de não comprometer nem uma ou outra dimensão e nem de torná-las artificiais ou mutuamente excludentes, posto que essenciais. Talvez fosse sua trajetória e/ou mesmo sua incapacidade de satisfação ou realização, o certo é que nesse jogo se entendeu inegavelmente auto-vitimado. Afinal, involutivamente, fadava-se a intermináveis ciclos de fulminante deterioração e incompleta e penosa recuperação. Como já havia passado por aquilo antes, não foi difícil divisar a reincidência do espectro do impulso impaciente e obtuso de compensar o tédio lacerante de seus condicionantes com imaturos e condenáveis rompantes cumulativamente auto-destrutivos. Sem titubear se convenceu que a liberdade e a satisfação estavam na disciplina de se alcançar novas perspectivas e vivências, pautadas no amor, na saúde e na diversificação e fortalecimento de suas capacidades. Já havia colhido frutos dessa prática e sua vida, concretamente, já gozava de novas e qualificadas oportunidades. Além do que seu tempo e dos seus corria e não queria encurtá-los mais, especialmente desperdiçando situações únicas e duramente conquistadas. Talvez fosse mesmo isso, a felicidade e a dignidade autênticas – há tempos desconhecidas e uma vez alcançadas e sabiamente sustentadas - pudessem proporcionar o sentido de uma vida mais prazerosa, plena, longa, fraterna e real. No fim, seria ao menos uma pessoa bem mais resolvida e melhor. Atenção no caminho de volta, concentrou-se. Eterno, sempre cruzaria trilhas insanas, especialmente no começo, onde desvios labirínticos convidariam mesmo a situações piores. Deveria optar sempre, evocando o insight primordial, programando-se. Concessões sempre desnecessárias só perpetuariam o agravo de tendências incontroláveis e efeitos nefastos. O mal apenas a si mesmo, argumento falho, sempre afetou tudo e atualmente e cada vez mais, uma última extravagância poderia dar em nada. Ocorreu-lhe que aproveitasse o incomum céu azul para vazar e seguir com fé a guia que já tinha em mãos, sabendo que seriam imprescindíveis alternativas de valor, conteúdo e disposição, além de paciência, coragem, desprendimento e principalmente responsabilidade. Não deveria menosprezar eventos, lembrando-se que tudo poderia estar por se perder em um átimo de segundo – como seria o amanhã? O vigor viria na medida dos passos certos. Foi, enfim, convicto, andando calma e progressivamente que viveu mudanças estruturais inimagináveis. Adiante, tornou-se outro novamente.