Por opção, havia aderido à luta pela equidade e, portanto, singrou a pena das tempestades, desertos e solidões da faina humana. Foi moeda, ferida e esperança. Acertando bem menos do que foi acertado, perdeu-se, assim, de si, rápido e durante muito tempo, esvaindo-se tal foligem, como a maioria. Entretanto, refugando em suas opacas miragens, seus sonhos não desistiram dele. Não foi senão sua coragem e humanidade que os disciplinaram em reagir, pacientemente, de modo a aprumar-lhe as idéias e as ações, a fim de perseguir, astuto e disposto, sua sina – de viver e, desejosamente, gerar vida.
Exigindo constante despertar, essa parte do caminho foi ainda mais difícil, uma provação. Até que, então, quase sem saber como, acordou em uma manhã como se fosse - para sempre - uma nova e plena vivência. Respirou ávido o ar salgado e úmido de um arquipélago do Pacífico, sabendo à mata e mar e pisou, descalço, a areia branca e fina, leve, como se estivesse planando. Beijou o sol antes que este o fizesse e, sentindo-se como uma estrela, imergiu no azul das águas como um espírito no éter. Pulsava-lhe o coração por todos os poros e atinos, cadenciado pelas ondas e correntes. Suas retinas projetavam uma miríade de cores e formas e sua pele e movimentos, feito o mar, espraiavam-se, perfeitos e livres. Diluído, fluido, percebeu-se, então, completo – a ponto de sublimar-se e emanar, feliz, gratuita e farta positividade. Afinal, então, adivinhava que mesmo em terra, o mar nunca mais lhe deixaria, assim como no oceano, o sol jamais lhe abandonaria.
Virou peixe, concha, pedra, chuva, palmeira, caranguejo, besouro, tempo, onda, tempo, mito, resto e, enfim, mais do que gente, encontrou a si mesmo. Concluiu ser imortal, apesar de saber-se finito fisicamente. Porém, longe de se iludir, sabia que essa condição jamais seria suficiente para combater, minimamente, a sombra apocalíptica que vinha tragando a séculos sonhos, paraísos, labores e, enfim, a expressão da vida. Não podia mesmo, de fato, esquecer os guetos, os fundos de investimento, o gado, a fome, a África, a guerra, a extinção das espécies e dos mananciais e, sobretudo, a fumaça que brotava da fundição de tudo e todos em insano capital.
Contudo, sob pena de morte, não poderia voltar à cena pregressa, ativista, no vértice do turbilhão. Mesmo que o cenário fosse de hecatombe nuclear. Lá fraquejaria antes e seria o fim de seus esforços. Poderia contribuir muito melhor ali, onde era incomparavelmente mais forte, perto do sopro divino, protegendo-o como pudesse do hálito da besta. Assim era sua natureza e dessa forma, seria capaz dos maiores sacrifícios.
sexta-feira, 16 de março de 2012
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário