Aquela madrugada de terça-feira na Asa Norte do Plano-Piloto da capital do país, seria apenas mais uma daquelas em que a minha indigência ficava mais patente, relegando-me à penosa consciência de minha nulidade, apesar do incomum frio marcar mais ainda o quadro. Nesses momentos, mendigando vestígios do que fui antes de cair nas ruas, distraía-me lendo com afinco publicações ofertadas gratuitamente nos pontos de ônibus e assim, sempre que possível embebedando-me, acabava sentindo que restaurava um pouco de minha identidade.
A singularidade de minha situação, de um vagabundo letrado de meia-idade, no entanto, mesmo consistindo em excelente argumento para roteiros ou teses, não tem relevância, pois é sobre aquela noite surreal que quero contar. Às três da manhã, com o ego ébrio e mais refeito, tomei coragem e arrastei meu surrado carrinho de feira abarrotado com meus preciosos pertences pelas quadras em direção a um abrigo seguro. A cidade literalmente dormia e afora ícones da fauna noturna, não havia viva alma. Nem os gatos estavam se arriscando e assim, não foi difícil reparar que bem menos do que de costume, mesmo para um início de semana, pouquíssimos apartamentos mantinham as luzes acesas.
Na calçada em frente a um desses prédios das quadras habitacionais, parei para acender um toco de cigarro que havia guardado. Além da cena do porteiro zelando pelo seu próprio sono, detive minha atenção em um apartamento do terceiro andar que era o único com a luz acesa em toda a redondeza. Dando contexto à nicotina, pensei: que estaria fazendo o pessoal lá a esta hora nesta estrela solitéria que não está dormindo? Se fosse eu, continuei, estaria bem quentinho na cama, curtindo meu quinto sono. Aproveitando a parada, desviei o olhar para desenterrar o resto da pinga, embutida no carrinho. Quando elevei minha cabeça para um derradeiro gole, um tanto surpreso vi que agora era um apartamento do segundo andar que tinha a luz acesa enquanto o do terceiro estava escuro como a noite.
Curioso, mantive o olhar no recinto iluminado e então, aconteceu. Quase perdendo toda e qualquer noção de equilíbrio físico e mental e, no entanto, mais maravilhado do que assustado, acompanhei o cômodo aclarado bailar por todo o concreto do prédio, tal vaga-lume, transitando, já ensaiava eu, por entre mundos extraordinários ou reunindo-os. Seguido por uma coreografia de contorções de meu rosto, luzidio, o apartamento subia, descia ou arremetia-se pelas laterais agora com velocidade impressionante.
Petrificado pelo meu testemunho, meu corpo simplesmente não obedecia aos meus reflexos de fuga quando pulverizando qualquer nesga de lógica, o apartamento luminoso descolou-se da construção, esvoaçando pelo céu e ruas em evoluções meteóricas.
Proporcionando nova e estupidificante dimensão, aquela visagem mergulhou em minha direção e literalmente, através de mim, varou-me uma sacada com plantas e então uma sala, iluminada por uma lâmpada incandescente amarela, onde, como em um painel de controle, sentado na cabeceira de uma mesa de seis lugares, um homem também de meia idade, trajando apenas uma bermuda, escrevia calmamente à lápis nas páginas de um simples caderno.
Não tive como recusar seu convite gestual para que sentasse ao seu lado na mesa e então, sem menor surpresa, fui sendo tomado por um sentimento de paz inexplicável e assim, foi se estabelecendo uma uníssona dialética entre nós enquanto a sala nitidamente acelerava seu vôo, crescentemente de forma menos material e mais sensorial. À altura e no decorrer do fantástico evento, não me surpreendeu que nossa viagem tivesse como destino um verdadeiro Graal universal: um exercício sobre o entendimento do mecanismo da “perfeição” em nossos atos, posturas e ideologias, uma vez que afinal, errar é humano.
Assim, não visitamos lugares ou tempos, vagamos por cenários conceituais, experienciando pólos completamente antagônicos, complementares e suas matizes de intergradação de contextos. Procurando meios de processar informações, as razões, paixões e dúvidas sucediam-se efêmeras ou perenes em panorâmicos caleidoscópios que mesclavam-se ou fragmentavam-se, empanturrando-nos de infindável universo de expressões e compreensões A definição do que é ou não “verdade”, saltou-nos como uma via para o estabelecimento da “perfeição”. Porém, percebemos neste estágio, que a “verdade”, dada a profusão de variáveis, parecia tão inerente e aceitável quanto a ignorância ou mesmo quanto à imaginação. Quando tivemos a idéia de nos multiplicamos e diversificamos imensamente, a fim verificar diferentes escalas e desdobramentos, algo pareceu ter mudado. A simulação de diferentes abordagens culturais, embasadas em paradigmas diversos, trouxe respostas originais e complementares, mostrando que a “verdade” é um conceito que pode ser produzido e massificado.
antes de procurar um abrigo seguro
potencializada pelo incomum frio seco do inverno do Planalto Central.
Apesar da sensação potencializar-se pelo intenso frio Apesar do inóspito frio parecia-se com muitas outras
Ostentando minha costumeira eloqüente invisibilidade, meu calejado corpo seguia para o abrigo
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
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