segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

mais África

A um tempo, como numa benção, mãos esqueléticas, incrédulas, enchiam de comida bocas ávidas, ressuscitando mesmo desenganados. A sede, de maneira inconcebível, escorria-lhes, enfim, pelos cantos, transbordando saciedades. De poços abismais, seus olhos passaram a irradiar intensa luz. Suas inúmeras chagas, então, extinguiram-se e de forma ainda mais surpreendente, ódios, penúrias e cobiças converteram-se em identidade e amor coletivo. Histórias e futuros foram melhor compartilhados e fundou-se um povo em essência, enfim, mais humano, igualitário e ciente. A decorrente democratização de ciências, políticas e artes fortaleceram ideais de uma concepção e possibilidade de mundo, então, particularmente, mais fraterno. Irmanada, a natureza ali vicejou, paraisando o ambiente. Logo, surpresos e abalando-se pelo inusitado e revolucionário ensaio, déspotas de potentados vizinhos promoveram – e promovem - forte guerra ao abençoado enclave, onde quer que ele esboce expressão. Afinal, como de praxe, antes da insuspeitada e localizada benção, o poder poderia até emanar do povo, mas, sem qualquer outra possibilidade, deveria – e é - ser exercido exclusivamente por capazes assassinos e seus mandatários. Assim, concentrando os esforços bélicos, econômicos e políticos de seus adversários, a fraterna nação foi varrida do mapa, mas, ainda abençoada, sua filosofia igualitária vem fertilizando, cada vez mais, a jornada humana. Entre as inconseqüentes e mimadas crianças e seus brinquedos nucleares, seus quartos desarrumados e seus desperdícios letais e suicidas, organizam-se, necessariamente e de forma engajada, ainda menos do que necessárias, pessoas, esforços e iniciativas espiritualizadas e evoluídas. No que vamos nos transformar – e ao universo e suas formas de vida - é essencialmente uma questão de tempo e de capacidade de transformação. Entre a capacidade mais bestial de se promover um holocausto ou a sustentabilidade global, vivemos a nóia ou o sonho de um mundo melhor. Cabe a nós decidir e fazer.

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