Taxiando
Sentado no banco de trás do táxi, Brasília parecia-se com o mundo naquela bela tarde. A animada e despretensiosa conversa entre mim e o motorista cearense sobre a canseira do trabalho, a proximidade das férias, a família, as origens e o rumo da corrida, parecia harmonizar-se à paisagem, dando-lhe contornos mais interativos.
De repente, ignorando o sinal vermelho que nos detia, os olhos perdidos e o corpo retorcido de um indigente de meia idade epilético em plena crise, esparramado na calçada ao lado, avançaram para dentro do carro e de nossas convicções, remetendo-nos abruptamente, em muda eloqüência, à perturbadora certeza do fim. Em estertor, o homem ainda tentou se levantar, sem sucesso, enquanto chegavam paramédicos, arautos de uma esperança qualquer.
A luz verde do sinal e o movimento dos carros à frente despertaram-nos e seguimos, deixando a cena inacabada inocular-se em nós. Lembro que cruzando o semáforo, à cerca de 50 metros adiante do local, percebi, tomado certamente pelo efusivo estado de alerta, que as pessoas na calçada conversavam ou caminhavam sem reagir ou muito menos saber do acontecido.
Refleti, totalmente impressionado pela sincronia entre as expressões vida e morte, impulsivamente, que um momento – em sua passagem – parecia ser bem mais rico que um local no intervalo delimitado ou que uma unidade de tempo abriga maior variação e volume de eventos durante sua passagem do que uma unidade de espaço naquele período.
Pareceu-me, claro, recuperado, trivial o raciocínio, afinal o tempo está em todos os lugares simultaneamente e não o contrário. Afinal, naquele momento certamente estrelas explodiam, bisões pastavam e certamente muita gente nascia, crescia e morria. Por
outro lado, aquele lugar, em diferentes períodos, permaneceu acumulando performances durante a rolagem do tempo, abra ngendo enorme diversidade de eventos à sua maneira.
Apesar de me questionar se é possível existir tempo sem localidades ou sem mim ou vice-versa qualquer coisa, além de outras idiotices suscitadas ou pela experiência, numa perspectiva pessoal e certamente mais interessante, aquela vivência e seus instante e local permanecerão comigo – e com os que a vivenciaram - de alguma forma, diversificando imprevisivelmente qualquer definição ou desdobramento da relação entre o tempo, o espaço e vivências. Dificilmente conseguirei extrair algum conceito válido disso tudo, mas a riqueza do universo e o valor das experiências ficaram bem mais claras, fomentando, especialmente, a gratidão pela morte continuar me errando por mais tempo e por onde tenho andado. Assim, de maneira redundante, certamente é próspera nossa qualificação do uso do tempo e do espaço, mormente de forma coletiva. Essa quase idiota obviedade, resultante da mirabolante interpretação – naturalmente em muito emotiva – de uma
vivência onde a vida e a morte se acotovelaram, só reforça o seu valor.
Talvez arejados pelo vento do carro em movimento e perto já de meu destino, a prosa instintivamente evitou temas letais e voltou às amenidades do início da corrida. De minha parte, agora refletindo, não poderia esperar que chegasse a sendas tão diversas naquela viagem de taxi numa tarde no Plano Piloto.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
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