SamBrasil
Sob o contagiante samba-enredo da BM&FBovespa e coalhado pela nata do baticum global e para sua redenção, o carnaval corria solto e libertário na apoteótica Pindorama. Nos vais e vens amazônicos, paraguaios e platinos, flertando agendas multilaterais, inebriada e provinciana, a nação celebrava a – sabidamente sempre efêmera - fantasia faustiana na catarse de um gol de placa no pré-sal ou na sacralidade do bento suor do rabo da mulher-melancia. No ambiente privê dos camarotes palacianos, foliões da Vale e de outras multinacionais, além de passistas e parasitas do establishment, diluíam-se em negociáveis rebolados ao sabor de uma miríade de repertórios ego-políticos locais. Enquanto isso, na passarela, só alegria: democratizando mesuras, sorrisos e salamaleques, especialmente a potentados, os notáveis da comissão de frente inauguravam o show da emergente pátria. Na sequencia, ofertando incalculável espetáculo, o desfile da ala das commodities incendiava o rincão e deslocava multidões, esbanjando luxúria enquanto a bateria do PAC, travestida em inacreditáveis cargas tributárias e sob a égide do Banco-mor, ditava o ritmo sem pedir licença ou aprovação, explodindo em dourado, gemas e confetes e serpentinas de gado, soja, milho, sorgo e cana - esta última, então, era a glória. Capitalizando sobremaneira os créditos da ala precedente, os poucos, porém históricos integrantes do bloco dos latifundiários junto à União dos empreendedores privados mostraram mais uma vez ao que veio, mesmo sem inovar: autodenominados como esteios da nação, distribuíram balas, algum dinheiro e principalmente, cuidaram do patrimônio alheio como se fosse seu. Energia não faltava à comemoração, pois, mesmo se tivesse apagão, os radioativos, metais e eletrointensivos varavam continentes no couro da geral e de seus descendentes, fazendo zoar alto o choro das cuícas, marcado pelo surdo vácuo da exclusão e extinção “megasóciobiodiversa”. De repente, uma série de paradinhas, muito bem colocadas e enxertando o visceral balanço do funk na levada da avenida, promoveu átimos de silêncio e atenção que remetiam a psique do povo, intuitivamente, antes às cachorras e fauna acompanhante. Especialistas correlacionaram, aí, então e definitivamente, a excitação do evento ao aumento do aquecimento global – porém, até aí morreu Neves e o samba não pode parar, como dizia o poeta. Portanto, na patriótica farra, ninguém se deu ao mínimo estorvo de intuir em meio ao gozo comunal, que, afinal, as mazelas tornariam-se as etéreas purpurinas que brilhavam mesmo de relance e “psicodelizavam” a festa. Colorindo indelevelmente o apogeu da saga, carros alegóricos-partidários, encenando mitos de abundante e siliconizada fertilidade, ofertaram, dadivosos, todos, escandalosas performances de ícones nacionais, mascarados e nus em pelo. A platéia, claro, assaz identificada e eufórica, cheia de orgulho da raça, cagando solenemente para inevitáveis ressacas, faturas ou falências, entoou em transe seminal os mantras carnavalescos, certa de sua fé na providência e de olho mirado, entretanto, complacente e credor, às evoluções do Mestre-Sala e da Porta-Bandeiras – diretamente eleitos pelo voto obrigatório. A certa altura, marcada por mirabolantes efeitos de fumaça da galera das cracolândias, a coreografia permitiu, para assombro geral, o livre trânsito dos brincantes do tráfico, mesmo daqueles de lícita fluência no tabuleiro mundial – apareceu todo o tipo de gente, impressionante. Então, gerando incondicional insigth, a bola finalmente tufou a rede no Maraca de cada um quando, fardada ou não, de terno, tayer ou repleta de crianças que de futuro só teriam um tênis Nike e formigas na boca, as milícias e seus mandantes estatais chegaram de bicho, como num arrastão, disparando incessantes salvas de seus tamborins automáticos, atualizando toda a cadência da escola e secretando, enfim, a siamesa essência da massa – o que provocou um uníssono de suspiros de alívio nos que se arriscaram ao menos uma vez na vida a se perguntar “de onde vim”, “quem sou” e “pra onde vou”. A esperada ala das putas botou o santo no quadro quando beatizando de vez a preferência nacional e mimetizando-se a quaisquer dos devotos, promoveu novo espasmo de suspiros de auto-reconhecimento – tocante no conjunto da obra. Nesse momento, incrédulos e propensos até a raiz, os gringos se renderam por completo, fundindo-se, celerados, aos humanos, demasiadamente humanos e celebrando - em júbilo e tentando extipar seus recalcitrantes ônus (a)morais - a permissividade de paradigmas e fronteiras dos trópicos. Sorrindo até suas contas-laranja e abençoando aquela data e seus paraísos fiscais, os jurados, cúmplices bem-aventurados, em liturgia semi-monástica, elevaram, naturalmente, suas notas acima das possibilidades de crédito, levando a população a, tediosamente, conjurar que o espólio alheio era o meio ideal de se ter sucesso de vida, abstração logo substituída por uma suruba – com muita camisinha jogada sensatamente e de última hora pela produção - até então tácita e prontamente generalizada. Se alguém ficou de fora, corria na mídia cruzada, é porque não foi convidado é ruim da cabeça ou doente do pé. No entanto, economias centrais, on line, reféns da autenticidade da expressão e de sua aderência, inseriram, à revelia de suas limitações metafísicas e no momento propício, o registro do bacarnaval, como, por exemplo, a obra de Sheakespeare, como uns dos cinco maiores legados da espécie em sondas extra-galáticas, argumentando, salvo melhor juízo, que se tratava de uma estratégia reprodutiva esplendidamente aquilatada. O Universo, então, deve ter virado um eterno Big-Bang – salve o cosmosamba.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
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