terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

D. Maria

Dona Maria

D. Maria levanta antes do galo mais afoito e deixa o marido dormindo na rede em que com ele dividia. Enquanto faz o café e põe bolachas na mesa que fica na parte de fora da casa, extensão de terra batida e coberta por uma lona, ela vai programando como será o dia. Sua primeira preocupação fragmenta-se em muitas outras. Mas não tem mesmo muito tempo para refletir. Logo os filhos e o marido erguem-se com a aurora e rápido, em tácito acordo, todos vão para a praia. Ela deixa as crianças mais novas com sua sogra e junto com as mais crescidas, vai “despescar” o “curral” enquanto que o marido, seus dois filhos mais velhos, um primo e um vizinho arrumam a faina de mais uma jornada de pesca no “mar de fora”. Dois sobrinhos, que vivem com a família adentram o “mangal” atrás de caranguejos e turus para subsistência. Ainda antes das 7h da manhã, D. Maria e sua “equipe” trazem a “produção” do curral e de imediato, enquanto os filhos se encaminham para a escola existente, os peixes considerados mais nobres são por ela negociados a baixo preço com os “marreteiros” locais, pois não há “geleiro” na área. Nesse mercado informal, D. Maria e suas colegas em situação semelhante, aproveitam para pôr a conversa em dia e combinam de à noite, estarem presentes a mais uma reunião da Colônia de Pesca que acontecerá. O restante dos peixes é levado para evisceração e salga, também feita por ela e pelos familiares aptos e disponíveis antes do almoço, que conta com sua participação na elaboração. No início da tarde, em meio às necessidades dos mais novos e a percepção de que seu reumatismo está aumentando, D. Maria organiza uma pequena “linha de produção” com os próximos, para reparar os apetrechos que estejam em mal estado. Após o que, pode optar em ajudar no “mutirão familiar” da “farinhada” ou mais comumente, no da arrumação da casa e da “bóia” e então, aguardar a chegada da embarcação em que o marido trabalha na boca da noite. Quando o barco aporta na praia, dependendo da maré, a família ajuda no desembarque do pescado e novamente, o peixe de primeira é negociado de pronto. Muitas vezes as mulheres intervêm na barganha da produção talvez por terem freqüentado por mais tempo o colégio (quando existente) do que os homens, arregimentados para de dispersar na pesca no mar desde cedo. Após o possível acondicionamento do pescado e um banho de água de poço, o marido e seus companheiros (boa parte com câncer de pele desenvolvido) podem embicar para uma birosca, onde ficam até a hora em que o pessoal da Colônia se reunirá, enquanto que D. Maria, junto com as outras mulheres da casa, vão cuidar das crianças e finalizar o preparo da janta. Após o que, D. Maria e o marido, um tanto cansados, vão para uma reunião da Colônia. Já meio que acostumado, o esposo percebe que sua mulher e suas amigas vêm, na verdade, tomando a iniciativa em muitas ações estratégicas da Colônia e sobretudo, vêm apresentando e executando soluções plausíveis em terra. Contudo, fica surpreso em ouvi-la, do alto dos seus 50 anos de muito trabalho duro, falar que as mulheres irão montar uma associação de gênero, ligada à sua parcela de labor com os recursos naturais – complementares de insumos na unidade familiar - alegando que não têm sido devidamente amparadas em seus direitos trabalhistas, de saúde, previdenciários e que se consideram, sobretudo, personagens indispensáveis à reprodução do sistema em que vivem - de economia familiar. Como saldo e apesar de atritos esporádicos, o orgulho da comunidade enleva-se, pois há certeza de que se renovam e ampliam-se suas forças. Antes das 21h, a rede do casal já range de novo.

2 comentários:

  1. Uma análise da típica família litorânea nordestina, não somente esta. A mulher sempre envolvida em tantas atividades, geralmente a primeira a levantar e a última a se deitar. Observasse aí o nascer das primeiras do Direito da mulher trabalhadora, direito este que até o momento não alcançou a sua plenitude. Parabéns pelo texto!

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